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Nietzsche… um profeta do nosso tempo?

Na sequência do filósofo do martelo, – assim também é Nietzsche conhecido -, em tempo de eleições (num país que anda sempre aos papéis para tudo…), será bom reflectir sobre outros temas, cujas clareiras ele abriu, simbolizou e vituperou.

N/D
21 Dez 2004

Na sua obra Assim falava Zaratustra, de tão contundente e envolto em máscara, – “tudo o que é profundo, gosta de máscara” (Alles, was tief ist, liebt das Maske…) -, o que não é o meu caso, como novo Zoroastro germanizado, quer ser alguém que quebra as velhas tábuas da lei, como errante personagem profético, espécie de anti-cristo vivo, com algo do Empadócles de Holderlin e atitudes dionisíacas.
Aí se trava um combate contra toda uma herança que urgia repudiar e destruir: a herança judeo-cristã, com a sua moral, e mesmo a metafísica do idealismo alemão.

Aí se vinca um Ego imenso, selvagem, empolgante e intransigente, com craveira e sem temor tersado.

O seu inimigo é o antigo Deus, os seus sacerdotes, crentes e sequazes, a moral cristã em conjunto, essa “moral de escravos”, que Zaratustra despreza e amaldiçoa por ser uma moral de rebanho, de pouco convencidos.

Ele é o novo pregoeiro de um novo céu azul… E toda a sua mensagem se resume em duas evidências: Deus morreu – tanto o do judeo – cristianismo como todo o Olimpo helénico – e o homem deve ser superado, pois não passa de uma corda, uma ponte, um meio para ir além…

Mas, subjacente está a convicção: foi o homem que matou Deus por ter deixado de crer nele, vivendo hoje triste, numa noite escura provocada pelo assassínio da divindade.

Não era outro o significado dramático que Nietzsche lançava em 1885, como apelo à Europa, espécie de profecia, para o pior e o melhor, o destino que aguardava os europeus:

“Ó Europa! Europa! conhece-se o animal cornudo que sempre teve para ti mais atracção, a fonte dos perigos que te ameaçam sem cessar. A tua velha fábula pode tornar-se história (anedota), uma estupidez enorme podia de novo tentar atrair-te e arrebatar-te.

E não é um Deus, desta vez que se dissimula debaixo dessa estupidez enorme. Não! Apenas uma “ideia”, “uma ideia moderna!”.

E não seria precisamente o fascismo totalitarista, que tinha tomado a estatura do bestial raptor de alguns dos povos da Europa, como o tomaria, em 1992, na Itália e, em 1933, na Alemanha?… e hoje com o Estado a procurar “o politicamente correcto” e Socialismo com a nova moral do alargamento do aborto, casamentos homossexuais, eutanásia, perversões etc. servidas como nova moral…. e servida por novos ídolos “modernos”?!

Especifica mesmo um ídolo: – desde a crença no Socialismo à crença na majestade omnipotente do Estado. Contra este último tem as mais duras críticas e diabretes cáusticas, como um acrata ou anarquista.

No engrandecimento do Estado, na idolatria estatal, via uma regressão ao animal, à brutalidade animalesca primitiva, como conota a presença seminal da metáfora que relacionava o homem com uma corda entre a animalidade e a sobre humanidade futura: o novo ídolo Moloch estatal, como um retrocesso terrível dizendo, por exemplo, que “o Socialismo, apesar de certos humanismos filantrópicos, é o irmão mais novo do despotismo quase defunto”.

(Cf. Nietzsche, Humain, trop humain, II, p. 140e João Medina, in Clio, Lisboa, 2004).
Ouçamos Zaratustra invectivar o Estado de forma colérica:

“Estado? O que é isso? Pois bem! Agora abri-me esses ouvidos, pois tenho uma palavra a dizer-vos acerca da morte dos povos.

Estado é como se chama o mais frio dos monstros frios. É também com frieza que ele mente e da sua boca sai essa mentira. Eu, estado, sou o povo.

Isso é mentira! (…)
Mas o Estado mente em todas as línguas do Bem e do Mal; e diga o que disser, mente; e tenha o que tiver, roubou-o.

Nele tudo é falso. É com dentes roubados que ele morde, esse mordaz. Falsas são até as suas entranhas.
Nascem demasiados seres humanos, e é para os supérfluos que foi inventado o Estado…”

Mas não se fica por aí:
“Sim, também vós, vencedores do antigo deus, ele vos detecta. Cansastes-vos da luta e, agora, o vosso cansaço ainda serve o novo ídolo!

O novo ídolo está disposto a dar-vos tudo, se vós o adorardes: é assim que ele compra o brilho da vossa virtude e o olhar dos vossos olhos orgulhosos.(…)
Olhai-os a trepar, esses velozes macacos! Trepam uns por cima dos outros, e arrastam-se assim, para a ama e para o abismo”.

E especifica: “eu chamo Estado o lugar onde estão todos os que bebem o veneno, sejam bons ou maus; Estado, o sítio onde se perdem todos os bons os maus; Estado o lugar, onde o lento suicídio de todos se chama “a vida” (Nietzsche, Assim falava Zaratustra, p.66-67)

O que fez do Estado um inferno, fizeram os homens dele um paraíso, ou, parafraseando Holderlin, um oásis que nunca foi nenhuma escola de virtudes…

E assim que o mito do Super-homem ganha uma espécie de valor redentor: não deve cair nem na idolatria do Estado marxista, socialista nem no ceserismo, mas deseja todavia algo que vença todas as formas de nihilismo, que ocuparam o vácuo deixado pela Morte de Deus.

Tudo isto como forma de transcender o nihilismo político, que ele intuía como doença perigosa que, de forma catastrófica se viveu nos séc. XIX e XX, com as apoteoses dos estados fascistas, da barbárie comunista dos gulags, dos esqueletos de Auschwitz e tantos calvários e matadouros da Europa novecentista… E hoje?!…!

Por isso seria urgente restaurar a alegria, a fé na construção de um novo mundo espiritual, pois a morte de Deus fora, porventura, em consequência, o seu resultado mais evidente, profundo e funesto, apesar de certas preocupações sociais, sobretudo de governos socialistas-fascistas, do nosso tempo, numa Europa sem alma…ou com a “santa laicidade”…

Estaremos a ver realizada esta profecia?!….




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