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Compreender a vida ou viver a vida?

A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas só pode ser vivida olhando-se para a frente”. Soren Kierkegaard

N/D
21 Dez 2004

Há tempos, uma pessoa amiga enviou-me um engraçado e-mail que encerra uma grande sabedoria.
Diz assim:
“Dizem que havia um cego sentado na calçada, em Paris, com um boné a seus pés e um pedaço de madeira que, escrito com giz branco, dizia: Por favor, ajude-me, sou cego.

Passou junto dele um sujeito que trabalhava em publicidade, parou e viu umas poucas moedas no boné. Sem pedir licença, pegou no cartaz, virou-o, pegou no giz e escreveu outro anúncio. Voltou a colocar o pedaço de madeira aos pés do cego e foi-se embora.

Pela tarde, o mesmo homem voltou a passar em frente ao cego que pedia esmola. Agora, o seu boné estava cheio de notas e moedas. O cego reconheceu as pisadas e perguntou-lhe se havia sido ele quem reescreveu o seu cartaz e o que estava escrito ali.

– Nada que não esteja de acordo com o seu anúncio, mas com outras palavras.
Sorriu e continuou o seu caminho.

O cego nunca soube, mas o seu novo cartaz dizia: Hoje é Primavera em Paris e eu não posso vê-la…

Mudar a estratégia, quando nada acontece, pode trazer novas perspectivas. Precisamos sempre de escolher a forma certa de nos comunicarmos com as pessoas. Não adianta simplesmente falarmos; precisamos de conhecer melhor a mensagem para sensibilizarmos e convencermos as pessoas”.

E conclui:
“A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, dance, ria e viva intensamente antes que o pano desça e a peça termine sem aplausos”. (Charlie Chaplin)

Diz-se que quem conta um conto acrescenta um ponto e deve ser o caso: a conclusão aparece como um enxerto na história.

Relativamente ao corpo da história, repete a lição de sempre, mas a que nós raramente prestamos atenção: a necessidade de estar atento aos sinais da evolução, que não nos pede licença para acontecer e alterar, por vezes, os nossos planos.

Sempre tive muita pena das pessoas que, por mera convicção ideológica ou por outras razões semelhantes, têm receio de parar para pensar e, por isso, acham sempre que está tudo bem; mas também não sou daqueles que defendem a mudança permanente, mudar por mudar, porque isso é simplesmente um grande disparate contra o ritmo da vida.

Os que nada querem mudar nem estão atentos aos sinais dos tempos situam-se fora da realidade, porque a realidade evolui, aperfeiçoa-se; os que defendem a mudança permanente ou são idealistas que também estão fora da realidade e se destroem a si mesmos e aos outros ou pretendem manter os outros em estado de desorientação permanente para melhor os dominar.

Quando as coisas não correm bem, é costume dizer-se que é preciso mudar. E está certo. Mas, mudar o quê e mudar como? Essa é a questão.

Só faz sentido mudar depois de analisar cuidadosamente a situação e eventualmente convidar todo o grupo a participar nessa análise e a propor soluções, para que se empenhem depois na resolução das mudanças.

Fazer mudanças impensadas e que estão fora do sentido da realidade é pura perda de tempo e de recursos.

Centrando-se no homem e procurando descobrir o sentido e o ritmo da vida, Soren Kierkegaard expressou de uma forma poética e brilhante este difícil dilema: compreender a vida ou viver a vida?

Diz ele: “A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas só pode ser vivida olhando-se para a frente”. A vida é dinâmica: a razão não a pode fechar em modelos definidos; só a fidelidade ao amor lhe confere a liberdade de voar.

Há algum tempo, vi na TV a transmissão de uma festa religiosa, que metia sermão. Pois aquele sermão, se tivesse sido dito há trinta ou quarenta anos, era exactamente igual: o mesmo tipo de linguagem, o mesmo modelo de discurso, a mesma retórica, os mesmos gestos.

E talvez também a mesma apatia dos assistentes.

Voltando à história do cego de Paris, o homem que mudou a forma da mensagem que o cego queria transmitir não alterou a realidade, mas introduziu um aspecto novo a que os transeuntes foram mais sensíveis para perceber e aceitar.

No sermão da festa faltou quem mudasse a forma de apelo da mensagem.




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