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O Natal entre o consumo e o desvelo

Os jornais, tal como os outros meios de comunicação social, não apresentam apenas um planeta de sarilhos. Ao lado das trapalhadas, dos pequenos dramas e das grandes tragédias, há, frequentemente, um mundo de felicidade perfeita. Um mundo a que todos podem aceder. Desde que – claro – tenham dinheiro. “Aposte na felicidade”, “aposte nos seus […]

N/D
19 Dez 2004

Os jornais, tal como os outros meios de comunicação social, não apresentam apenas um planeta de sarilhos.
Ao lado das trapalhadas, dos pequenos dramas e das grandes tragédias, há, frequentemente, um mundo de felicidade perfeita. Um mundo a que todos podem aceder. Desde que – claro – tenham dinheiro.

“Aposte na felicidade”, “aposte nos seus sonhos”, dizia um anúncio publicado no “Diário de Notícias” de ontem, na página 13, uma página certamente escolhida criteriosamente para propagandear a Lotaria do Natal.

“Vida boa”, promete, algumas páginas mais à frente, um outro anúncio. Para combater a decepção noticiosa, não falta, portanto, a publicidade que é capaz de operar maravilhas, de transformar um quotidiano tão pouco estimulante numa odisseia mágica.

“Não é o seu carro. Não é a sua música. Não é o seu trabalho. É o seu relógio quem diz mais acerca de si”, diz, na página 17 da revista do “Expresso”, um daqueles anúncios que funciona sempre bem.

Se se dissesse “Não é a sua música. Não é o seu trabalho. Não é o seu relógio. É o seu carro que diz mais acerca de si” ou, então, “Não é o seu carro. Não é o seu trabalho. Não é o seu relógio. É a sua música que diz mais acerca de si”, como podiam dizer, com idêntica propriedade, os vendedores de outros produtos, tudo funcionaria igualmente bem.

No mundo da publicidade, diz-se sempre que aquilo que se quer vender é o que mais contribui para construir uma identidade pessoal mais invejável. Seja isto ou seja aquilo, comprando isto ou comprando aquilo. Ou seja, é-se isto quando se compra isto, é-se aquilo quando se compra aquilo. Muito simples, portanto. A publicidade não vende produtos, propõe metamorfoses do ser.

“Distinção. Ousadia”, oferece, na página 17 da “Grande Reportagem” de ontem, a Nokia a quem comprar um telemóvel de “superfícies finas e sexy”.

“Saia à rua em grande estilo e seja visto com o novo telemóvel Nokia 7280”. Obviamente, o investimento apenas compensa quando se quer ser visto “em grande estilo”.

A Nokia, refira-se, não dá conta dos produtos que tem a oferecer a quem pudesse querer ser visto em pequeno ou médio estilo. Também nada diz sobre telemóveis mais púdicos para os segmentos de mercado mais conservadores.

A componente “sexy” está para os telemóveis, como a paixão está para os empreiteiros. “A força que nos move é a paixão”, assegura, na página 3 do suplemento de economia do “Expresso”, a Amorim Imobiliária”.

Quem reparar na publicidade incluída na imprensa do fim-de-semana poderá concluir que ela está muito fraquinha. Os anunciantes de automóveis, de relógios, de telemóveis e de whisky (os produtos mais anunciados nos jornais ditos de referência) permitiram que a imaginação se ausentasse neste período de tanta pressão consumista.

Dando razão a um antigo slogan, a imaginação, ao que parece, está na rua. É lá que os vendedores de todo o género de produtos lançam os seus ditos publicitários.

Na Avenida da Liberdade, em Braga, por exemplo, podia-se ouvir, por estes dias, um dos mais inesperados apelos ao consumo. Junto a uma pequena mesa em que se vendiam perfumes de várias marcas, repetia-se uma frase simples: “O pobre também tem direito a cheirar bem”.

Num outro momento, podia-se escutar que “por dez euros não vale a pena cheirar mal”.

Na imprensa, o período natalício é, não raras vezes, bem mais do que um continuado apelo consumista. Notícias várias dão conta da imensa solicitude que por aí circula.

Apreciável é, por exemplo, a preocupação com o bem-estar dos autarcas das freguesias demonstrada pelo Gabinete de Apoio às Freguesias da Câmara Municipal de Braga.

Todos os pormenores foram objecto de minuciosa atenção do referido gabinete para que um jantar de Natal para o qual se convidaram os membros das assembleias e das juntas de freguesia corresse da melhor forma.

Segundo o “Correio do Minho” noticiava na sexta-feira, “para animar as hostes, foi contratado um cantor, para além da actuação de dois fadistas”.

O cuidado não se cingiu aos momentos de animação. Também o jantar foi pensado até ao mínimo detalhe. Por isso, “ao contrário do que vinha acontecendo nos anos anteriores, o prato não vai ser bacalhau cozido – ‘que muitas vezes chegava frio às mesas’ – para ser substituído por bacalhau recheado”. Coisa bonita, o desvelo.




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