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Será a nossa sociedade matriarcal?

Evelyne Sullerot escreveu há anos um livro – “Quels pères, quels fils?”, onde levanta o problema da supremacia das mulheres, sobretudo nos conflitos familiares, infelizmente cada vez mais frequentes.

N/D
18 Dez 2004

Analisa o facto de muitas crianças serem criadas sem a presença do pai; refere também o caso dos homens se verem, com frequência afastados dos filhos, pois os tribunais, no caso de separação litigiosa, negam-lhe os direitos de paternidade e a guarda dos filhos.
A autora, activa feminista francesa, socióloga, dedicou-se a trabalhar no campo da demografia, da família e da política social. O que é curioso é que, apesar de feminista, dedica o seu trabalho a valorizar a figura do pai.

Diz: “O que eu desejo é compreender e explicar o declínio que afecta os pais, quer na sua condição civil e social, quer no seu papel biológico, quer na família, quer na imagem na sociedade, quer a ideia que fazem da sua própria paternidade, da sua dignidade, dos seus deveres e direitos, da sua percepção da condição de pais, bem como encaram as relações com as mães dos seus filhos e com as mulheres, e também como imaginam a paternidade do futuro”.

Houve tempo em que a mulher acreditava, aceitava e desejava uma estreita colaboração com o marido na educação dos filhos. As coisas mudaram, mas a grande culpa é dos pais, pois delegaram na mãe a função de educar, remetendo para si a tarefa de ganhar dinheiro para satisfazer as necessidades e também os caprichos da família.

“A mãe converteu-se assim no progenitor completo que desempenha todos os papéis; o pai é progenitor, mas insuficiente”. Já lá vão alguns anos que Evelyne Sullerot escreveu o referido livro e de lá para cá as coisas têm evoluído e muito: o pai assume tarefas relativamente aos filhos, que outrora só à mãe competiam.

Quando pequeninos, ajudam no banho, na toma do biberão, levam-nos ao médico para consultas de rotina, levam-nos aos colégios e, contrariamente ao que se via dantes, carregam com eles ao colo na rua ou então levam os sacos com o que é necessário para o bebé.

No caso de separação as coisas estão como sempre: é a mãe que leva a melhor, uma vez que a legislação está a seu favor e concede, salvo raras excepções, a guarda dos filhos à mãe, tendo o pai umas breves horas semanais para estar com os filhos o que é manifestamente prejudicial para a educação das crianças.

Sullerot pretende lançar um alerta para a situação em que estamos a cair – uma sociedade sem pais, coisa que deteriora a sociedade e constitui uma grave lacuna na educação dos filhos. Ela não esconde o orgulho que teve, como feminista, por ter defendido os direitos da mulher, até na guarda dos filhos em caso de separação.

Ao ver, porém, a situação de milhares de crianças separadas do pai, dá-se conta do erro que cometeu. As separações e as mães solteiras fizeram com que grande número de rapazes e raparigas chegassem aos dezoito anos sem ter conhecido o pai ou tendo dele uma recordação muito ténue. Ainda que lhe caiba a culpa da separação, não é justo para o pai tal situação e é extremamente gravosa para os filhos.

Para as crianças e jovens a figura do pai representa a estabilidade e segurança: eles precisam tanto do carinho da mãe, como do abraço, rude e forte, mas afectuoso, com que o pai se expressa.

É absurdo perguntar qual é mais necessário: o pai ou a mãe para o desenvolvimento harmónico da criança. Ambos são indispensáveis e se muitos casais pensassem nos filhos antes de romperem a sua ligação, haveria muito menos divórcios.

O Santo Padre João Paulo II, na sua “Carta às Famílias” diz: “Gerar segundo a carne significa dar início a uma ‘geração’ posterior, gradual e complexa, ao longo de todo o processo educativo”. Este equilíbrio de funções da mulher e do homem não tem sido fácil ao longo da história, uma vez que antigamente a mulher estava submetida ao homem e a figura do pai era vista como exemplo, como ajuda, como mestre, como guia.

A partir do século XVIII, o papel do pai começa a mudar, pois “ao promover a liberdade
de cada indivíduo, perde-se a unidade, a possibilidade de formar família ou grupo” O maior envolvimento do homem no trabalho com as inevitáveis deslocações, levou a mulher à necessidade de assumir os dois papéis.

Na segunda metade do século XX, mais concretamente nos anos setenta, os juristas ao reformar leis pensando só no bem dos filhos não repararam que estavam a cometer uma injustiça – a mãe tem o poder de decidir se os filhos continuam ou não em contacto com o pai e actualmente é alarmante o número de filhos que pouco vêem o pai.

A paternidade procede da vontade e do coração e Evelyne Sullerot afirma que a isto não se pode pôr barreiras, pois a criança precisa do pai e da mãe; necessita da sua presença real, que “não se mede em tempo, mas em atenção carinhosa e com amor”.

Tem havido grandes progressos no conhecimento da paternidade biológica, enquanto a paternidade sócio-afectiva é postergada. Se o homem deve interiorizar a sua total responsabilidade, como pai, a mulher tem de se convencer que nunca será a única a intervir no aparecimento do filho.

Muitos pais, talvez para se des-responsabilizarem alegam que optam pela separação para bem dos filhos (!), quando, se perguntassem aos interessados, os filhos, o que preferiam, ouviriam, de certeza a resposta – queremos que continuem unidos.

Mudar a legislação é algo que não chega. É preciso ir ao fundo da questão e mudar a concepção que actualmente muitos têm de família e de matrimónio.

E citando de novo João Paulo II, na introdução à “Carta às Famílias”: “Quando falta a família logo à chegada da pessoa ao mundo, acaba por criar-se uma inquietante e dolorosa carência que pesará depois sobre toda a vida”. Uma família que se funda no amor, e cujas relações assentam no amor, é o que dá valor ao papel de pai e de mãe e os considera complementares e insubstituíveis.




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