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Chover no molhado (52)

Advogar a necessidade de unidade na pluralidade; exaltar, no coração da unidade, a excelência da solidariedade, da organização, da harmonia; tecê-la de interdependências, na pluralidade, coroando-as com a eficiente cooperatividade; realçar-lhe um interesse, um significado, um objectivo, uma direcção; tudo isto pode ser muito ambíguo e entumecido de dissabores.

N/D
17 Dez 2004

A ambiguidade parece-nos sorrir não só no fundamento da unidade, mas também no interesse, no significado, no objectivo e na sua direcção.
Qual o significado? Qual o objectivo da unidade formada, por exemplo, por uma quadrilha de ladrões? Eles lá sabem. O que nós também sabemos é que, dentro da quadrilha, há organização. Na organização há solidariedade, harmonia, interdependência e uma eficiente cooperatividade. Também sabemos que, para atingir os objectivos, começam por desfiar o nefasto rosário de assaltos, de roubos; saqueiam, agridem, matam e espalham o terror.

Como avaliar, aqui, a unidade e, dentro da unidade, a harmonia, a organização, a solidariedade, as interdependências e, nestas, a eficiente cooperatividade? Como se torna tão maléfico o que tanto elogiamos? É que estes exaltados predicados jogam, agora, no tabuleiro da recíproca humilhação. E a unidade degenera, então, em cancro social.

Os conflitos, expressos numa gama fecunda de dissonâncias, são o bater do seu coração. E a força deste bater está no interior da sua unidade: organização… e eficiente cooperação. São como algumas borboletas, tão bonitas mas tão nocivas.

Vou, deste modo, ao encontro da escondida e longínqua raiz da unidade, que justificará a inequivocidade saudável da organização, da solidariedade, das interdependências eficientemente cooperantes e da harmonia, mas agora no interior da pessoa.

O objectivo é descobrir a palpável origem da consonância da pessoa consigo mesma. Numa palavra, descobrir para derramar um forte diluente na força do desespero, do sofrimento humano, que atordoa e desatina.

O alicerce da unidade, que vai despoletar e fortalecer a concordância da pessoa consigo mesma, é a unicidade. Esta é a forma do Uno. E o Uno é um predicado do nosso ser profundo, real e concreto. E, como tal, é Vida, Dinamismo, Amor, Esplendor, Alegria e Contentamento. É Esperança e Optimismo. É Religioso. É semelhante ao Coração de Deus. E nisto está a sua verdade.

O sentido da unidade, síntese da pluralidade, verga-se, assim, para o Uno de quem recebe o significado claro e distinto dos seus predicados.

Agora, o pensamento afectivo-emocional e o pensamento racional têm de saber conviver em unidade. No interior da unidade, em harmonia. No coração da harmonia, em recíproca e eficiente cooperação e interdependência.

Pergunto, ansiando pela resposta: que surge desta unidade? Parece-me surgir uma grande e maravilhosa força, saída da síntese do pensamento e acção. Esta força maravilhosa é o Espírito Existencial. É o Espírito cada vez mais maduro e humano. É o Espírito no começo da sua evolução.

À medida que a unidade se vai enriquecendo com novas e diferentes integrações, como as do pensamento intuitivo, social, moral, religioso e, por fim, a do pensamento sobrenatural, cuja fonte está na revelação divina, assim o pensamento existencial se vai progressivamente enriquecendo e crescendo, tornando-se mais e cada vez mais maduro e humano.

É com este espírito – assim o exige o nosso ser profundo e concreto – que a pessoa deve estabelecer relações com a realidade total, em qualquer domínio. É o espírito que, carinhosamente, nos coloca na proximidade da confluência com o Ser Divino. Este é o espírito que ajuíza o Mundo. Quem o abraça é sábio. O que o pratica é santo.




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