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Apontamentos de Natal

Dei comigo a pensar que o Menino Jesus ainda não nasceu para toda a gente, que há lugares onde Ele ainda não se fez anunciar. Que quantidade de interrogações e/ou juízos esta ideia pode levantar

N/D
17 Dez 2004

1 Há muito que se fez anunciar. Primeiro, interesseiro com pezinhos de lã. Entre artigos mais fúteis ou mais úteis, será mais alegre com isto, mais doce com aquilo, mais confortável com aqueloutro. No ar começam a “respirar-se” entretanto luzes mais ou menos multicores e cintilantes, para que a atmosfera O ajude a insinuar-se perante as pessoas.
Alguns dias mais tarde Ele chega interessado em transmitir a Sua verdadeira mensagem: surge iluminada uma igreja e depois outra, e mais uma de cada vez. Na cidade as suas luzes misturam-se com as das ruas e avenidas, “ladeadas” pelas das montras, um pouco por todo o lado; nos arredores, o cair da noite traz consigo igrejas enfeitadas com luzes que brilham no meio da escuridão.

E aos poucos as pessoas vão-se sentindo possuídas de Amor e de boa vontade: com alguma antecedência, vão-se recebendo e enviando cartões de Boas Festas; vão-se ouvindo as expressões “Se não nos virmos antes, desde já um Bom Natal” e “Obrigado, igualmente”. São votos formulados de que ninguém duvida. Como os dias passam rapidamente! Quase sem nos darmos conta, começa a pairar no ar o “cheiro” da Consoada.

2. O movimento na galeria do centro comercial prenuncia já a quadra natalícia. Nas respectivas bancas de embrulhos a azáfama é grande. Em algumas pessoas já se vai notando um leve cansaço, embora a tarde ainda “seja quase uma criança”; talvez porque em fim-de-semana e quando o corpo pedia um merecido descanso, a força da quadra se lhe sobrepõe.

A dado momento reparo num casal que empurra um carrinho de bebé de um lado para o outro, à procura de um banco mais ou menos livre onde possa descansar por um momento. Acaba por aceitar de bom grado o espaço que uma idosa vem a proporcionar-lhe afectuosamente. De longe fico-me a apreciar este quadro e a contemplar os extremos da vida: de um lado uma pessoa que já mal pode andar, pois até tem de se amparar numa bengala, simples como ela; do outro lado, indiferente a toda aquela confusão, um ser tão pequenino que dorme e cuja vida corre sobre rodas. De comum a ambos um pormenor curioso: a falta de dentes. Na retina mantenho o gesto desprendido da anciã que partilhou o seu espaço exíguo com alguém.

3. A criança não desviava os olhos da caixa dos chocolates. Acalentava a esperança, tão dourada como a prata que os envolvia, do momento em que ela seria aberta; o seu olhar não enganava. E a ansiedade tornou-o mais brilhante ainda quando viu a dona deles pegar na caixa. Porém o seu pequeno coração caiu-lhe aos pés quando ouviu a inesperada resposta: “Não; vou dá-los a estas pessoas amigas.” O sonho, acalentado desde há alguns dias virava pesadelo assim repentinamente, de um momento para o outro.

Há tanto tempo (apenas três dias!) a pensar na caixa, ou melhor no seu conteúdo, e naquele momento via-a por um canudo. Até já sonhara com ela, que os tinha comido todos seguidos; acordou aliviado porque a barriga já não lhe doía mas triste porque os cobiçados chocolates não eram seus.

Dos pés “apanhou” o seu pequeno coração quando ouviu que essas pessoas iam deixar um chocolate para cada um dos três adultos mais um para si. Tomando ares de entendida, achou por bem ditar a sentença: “Vai comer um chocolate quem se portar bem. Eu sei como se abre a caixa”. E deitou mãos à obra.

4. Aos poucos, quando cada um muito bem o entender, o filme deste Natal começará a ser rebobinado. Os últimos enfeites, adornos e artigos expostos serão os primeiros a ser retirados dos seus lugares. É preciso que a fita fique em ordem, para ser de novo projectada no próximo Natal.

5. Quatro ou cinco dias após a Noite da Consoada do ano passado soube de um presépio montado com as figuras mais importantes mas a que faltava a Figura Principal. Então dei comigo a pensar que o Menino Jesus ainda não nasceu para toda a gente, que há lugares onde Ele ainda não se fez anunciar. Que quantidade de interrogações e/ou juízos esta ideia pode levantar.




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