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Afinal, está próximo

E podemos, com estas trivialidades rasteirinhas, perder a dimensão do horizonte que está à nossa frente e da altura que se fixa não se sabe em que nuvem. Não é novo. Nem é por culpa da política ou da comunicação social.

N/D
17 Dez 2004

Nem importa primordialmente falar de culpa. Ou se ela finalmente casa ou fica tranquilamente solteira. É assim. E não é de agora. Esta composição maravilhosa que somos, tem limites, uns mais notórios que outros. E, como é sabido, apesar de a sociedade se dizer mais desinibida e até apregoar-se sem tabus – palavra tão recôndita que nem a si mesma se revela – continua a fazer altas estridências que outrora se contavam nos esconsos do povoado.
Um pequeno alvoroço que outrora passava pelo café ou pelo cabeleireiro, hoje sobe às torres dos jornais e de tudo quanto é informação de sons e imagens. Porque, mesmo com a aparente desinibição dos tempos novos, uma fresta de janela dá pano para mangas e para folhetins intermináveis que se expõem nas bancas multicores que vendem notícias com colecções múltiplas de filmes, DVD e inutilidades associadas.

Estamos a chegar ao ponto: quando damos por nós o dia passou e o povo andou aturdido com acontecimentos encenados ao pequeno-almoço, almoço e jantar, e com novelas e quejandas ao serão. E o calendário vai, como as árvores de Outono, perdendo folhas sem grande promessa de copas frondosas ou frutos apetecíveis.

Aparentemente nenhum mal vem, com isso, ao mundo.

Apenas a distracção ocupou lugares indevidos, o essencial ficou por dizer, boiando à superfície dum rio que nem nota que está a correr numa água que não regressa. A sociedade do divertimento desnorteado, na sequência do trabalho de pura rotina tecnológica, pode conduzir a uma cadeia tresloucada de despistes, onde o caminho essencial nunca seja encontrado.

O Natal pode escorrer por essas rugas da vida, sem significado nem grandeza. Sem razões formuladas ou campanhas contra Deus ou contra os homens. Apenas porque “atrás do tempo, tempo vem” e os pequenos nadas deixam de contribuir para a lista preciosa de razões pelas quais vale a pena viver.

O Natal – é bom dizê-lo – por mais pagão que se apresente, não anda longe da celebração de Jesus, ao enaltecer a solidariedade, a ternura, a família, o encontro, ainda que de consoada fugaz. Não anda longe. Mas é preciso que se faça ver e ouvir, e melhor se explique. Se não, escapa-se como mais uma efeméride que não nos autoriza a levantar a cabeça para vislumbrar que afinal o Reino de Deus está próximo.




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