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Crónica de um desastre anunciado

Sem querer ser desmancha-prazeres, não antevejo grande eco ao apelo de regeneração do PSD que o histórico social-democrata Fernando Ribeiro da Silva lançou, anteontem, em artigo publicado nas páginas deste jornal

N/D
16 Dez 2004

Finalmente o PSD e o CDS comunicaram ao país que vão concorrer às próximas eleições legislativas em listas separadas! Depois de vários dias em que a hipótese de coligação pré-eleitoral se alternava com a sua contrária a um ritmo alucinante, bem demonstrativo da hesitação e do desespero que se apossou dos aparelhos dirigentes de ambos os partidos, Santana Lopes e Paulo Portas anunciaram ontem o fim da coligação, mas com uma promessa sui generis: garantirão a formação de uma nova coligação “se for essa a vontade dos portugueses” e nenhum dos partidos, isoladamente, viabilizará “soluções de governo com quaisquer outras forças políticas”.
Para lá do tom pretensamente convincente e cordato das palavras então ditas, percebe-se que tal acordo esconde desconfianças mútuas entre os dois líderes e, muito provavelmente, profundas divergências quanto ao número de deputados para cada partido.

De concreto, apenas se sabe que os dois partidos da extinta coligação encomendaram sondagens a empresas da especialidade, cujos resultados não divulgaram, mas que, a avaliar pelos dados de outras sondagens independentes que têm sido publicitados pela comunicação social, apontam para a derrota da coligação e para uma vitória do PS no limiar da maioria absoluta.

E sabe-se, também, que um grande número de militantes de base do PSD, mas sobretudo a oposição interna, insistiam em listas separadas, como ficou claro no congresso de Barcelos.

Perante um cenário de catástrofe iminente, com um governo descredibilizado, um primeiro-ministro despedido por incompetência e irresponsabilidade e um PSD dividido e descrente, é evidente que as listas conjuntas representavam a última esperança para Santana Lopes.

E também para Paulo Portas pois que, apesar de ele e os ministros do seu partido saírem melhor na “fotografia” do Governo, o CDS está reduzido à desgastada pessoa do seu presidente e corre o sério risco de desaparecer, face à fortíssima bipolarização esperada.

Nestas circunstâncias, não sendo para vencer, a decisão de concorrer separados, com todos os riscos inerentes, só pode ser para evitar danos maiores ou para morrer, sendo certo que, apesar de tudo, se percebe existir da parte de Paulo Portas um íntimo desejo de esbater a desgraça à custa de algum eleitorado do PSD, descontente com a manifesta descaracterização que Santana Lopes imprimiu ao partido social-democrata.

Porém, será um erro pensar que, mesmo num cenário de hecatombe eleitoral, os dois protagonistas de que venho falando se retirarão discretamente de cena, pelo seu próprio pé, para que os seus opositores limpem as casas.

É que ambos têm em comum a concepção unipessoal do partido que chefiam e que utilizam como mero instrumento ao serviço do destino messiânico que supõem ter-lhes sido reservado pelos astros. E frustrado o seu próximo objectivo eleitoral, tudo farão para prosseguir na senda da sua promoção pessoal.

Nem que isso signifique constituir um novo partido e deixar em cacos os partidos que dizem servir ou, no caso do Dr. Santana Lopes, lançar-se na corrida à Presidência da República para combater a provável candidatura de Cavaco Silva.

Sem querer ser desmancha-prazeres, não antevejo grande eco ao apelo de regeneração do PSD que o histórico social-democrata Fernando Ribeiro da Silva lançou, anteontem, em artigo publicado nas páginas deste jornal.

Eis, caros leitores, o triste estado a que chegou a direita portuguesa.




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