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Alteração fonética ou crise de identidade?

A língua portuguesa alimenta-se das raízes e da evolução da História e da Cultura de Portugal. As regras da sua evolução não se podem alhear das suas raízes

N/D
16 Dez 2004

De há uns tempos para cá, a maioria dos falantes da TV e da Rádio, em vez de pronunciarem normalmente o rr duplo, passaram a pronunciar “égh”. Isto é, de consoante contínua/alveolar/vibrante, o rr passa, nesta recente moda fonética lisboeta, que se foi estendendo pelo país mercê da influência niveladora (sobretudo) da TV, a um som aproximado de consoante gutural velar (tipo j para o castelhano, em que Juan se lê “ghuan”).
Por mais que procure encontrar uma razão para esta recente moda (ou evolução) fonética que, de um dia para o outro, passou a pronunciar “égh” (espécie de r brando gutural, que nada tem a ver com a nossa raiz e tradição fonética), só se encontra uma explicação: imitar a pronúncia carioca (o português falado no Rio de Janeiro) dos actores das telenovelas brasileiras.

Dirão alguns, de acordo com o relativismo muito hoje em voga, que esta é uma questão menor, que nem vale a pena falar nisto, cada um fala como lhe apetece. Não concordo, porque a língua é um património comum (alguém lhe chamou a nossa Pátria, Vergílio Ferreira dizia que da minha língua vejo o mar), não pode ser mudado a bel-prazer de quem quer que seja, ao sabor de qualquer vaidade pessoal ou de qualquer moda.

A língua portuguesa alimenta-se das raízes e da evolução da História e da Cultura de Portugal. As regras da sua evolução não se podem alhear das suas raízes. O rr português não tem nada a ver com as consoantes palatais, geralmente designadas por guturais.

Esta imitação fonética brasileira evidencia uma preocupante crise de identidade. Há algumas décadas, era dandy o “éhrr” gutural à francesa; agora, é chique este maneirismo “égh” de tipo carioca. Manifesta também um evidente complexo de inferioridade: invadidos pelo imaginário da telenovela brasileira (razão tinha Freud ao salientar a importância dos sonhos na gestão do equilíbrio psíquico…) que vai procurando compensar as agruras da realidade com a realização imaginária dos desejos, procura-se imitar também a sua fonética. Nobre Correia chamou causticamente a estes tiques fonéticos lisboetas ” um pretenso cosmopolitismo com ares de ignorância”.

Como se trata de uma violência fonética, as pessoas atrapalham-se, enganam-se e ora pronunciam o rr (“érre”) normal, ora o “égh” gutural em moda. Faz-me lembrar as crianças dos 3 aos 5 anos a brincar com as palavras, a inventar novos sons e novas formas de pronúncia, antes de assumirem o património linguístico que lhes é legado pelos pais e pela sociedade. Bem, se continuarmos assim, cada um pode ir inventando o seu linguajar, porque tudo é relativo…

Não há dúvida que se está a viver uma acentuada crise de identidade: com o sentimento de relativismo cultural da metrópole, onde a perda dos valores patrimoniais e de referências pessoais é aceite sem crítica, onde a anomia de valores tende a ser lei, tudo isto leva as pessoas à procura de novos modelos que as assuma, quais adolescentes à procura de uma nova identidade pessoal e cultural.

No meio de tudo isto há um outro aspecto que nos entristece: é o ar afectado, pretensioso, envergonhado, dandy das pessoas que usam este linguajar… Reparem só neste excerto real de uma conversa:

– Porque é que passaste a pronunciar “égh” em vez de “érr”, perguntei a uma pessoa que já há bastante tempo não via e a quem sempre ouvi a pronúncia normal do rr.
– Porque é moda, é mais fino, é falar à moda de Lisboa…

É também pelo falar que se vê a maturidade e a coerência pes-soal. Reparem, por exemplo, nalguns sujeitos que se pretendem “líderes”: os que têm uma personalidade coerente e madura, que sabem do que falam e para onde querem ir, esses continuam a falar como sempre falaram, a pronunciar o rr (o érre) português como sempre pronunciaram; os que mudam de cor e de casaca com toda a facilidade, esses são os do “égh”.

Não me admirava nada se daqui a dias os ouvisse também pronunciar “tchia” em vez de tia.

Quando uma criança ainda não consegue pronunciar correctamente o rr diz-se que tem rotacismo, isto é, uma perturbação de articulação característica de imaturidade ao nível da mobilização muscular da fala. Nessas circunstân-cias, a professora costumava aconselhar a prática da lenga-lenga saturada em rr: “o rato roeu a rolha da garrafa do rei da rússia”.

Que se aconselharia agora a estes falantes acariocados? Qualquer coisa como isto: “o gato goeu a golha da gagafa do guei da gússia).

Há pouco tempo, num Posto fronteiriço com a Espanha, um sujeito respondeu a uma pergunta de um Agente com uma forma meio espanholada e meio acariocada. Então o Agente, educadamente, perguntou-lhe:

– O senhor é português?

– Sou.

– Então, não tenha vergonha de falar português… Somos portugueses e com muita honra!”

O sujeito ouviu, calou… mas não sei se convencido.

PS: Apoio a ideia de lançar o campeonato da língua portuguesa. Parabéns!




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