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Simpatia pelo diabo

Ao abrigo do princípio laico da igualdade de todos os cultos religiosos, o satanismo passou a ter, na Inglaterra, os mesmos direitos que qualquer outra religião.

N/D
15 Dez 2004

Depois de a Marinha Real britânica ter reconhecido ao marinheiro Chris Cranmer o direito a celebrar o culto satânico a bordo dos navios de Sua Magestade, estão abertas as portas das instituições britânicas aos próximos adoradores de satanás.
Chris Cranmer tem 24 anos e é membro da tripulação do navio de guerra britânico HMS Cumberland, estacionado na base da Marinha Real em Plymouth. Durante o processo de recrutamento, Cranmer declarou abertamente ser satanista.

Este facto não levantou dúvidas entre os oficiais da comissão de recrutamento. O porta-voz da Royal Navy explicou depois aos jornalistas que «os recrutas são tratados com igualdade e não proibimos a ninguém que tenha os seus valores religiosos pessoais».

Esta posição foi mais tarde confirmada pelo comando das Forças Armadas britânicas, que fez saber que «os valores religiosos são uma questão privada do soldado e ninguém, nem os seus superiores, tem o direito de ingerência nessa privacidade».

Os media britânicos lembraram que o caso do marinheiro do HMS Cumberland constitui um precedente de relevo, que passará a ser evocado por outros satanistas. O diário “Sunday Telegraph”, que se debruçou sobre o percurso de Cranmer, descobriu que o marinheiro é satanista desde os sete anos de idade, influenciado pela leitura do manual do satanismo, a chamada “bíblia” de Anton La Vey, o ideólogo do culto satânico.

O caso Cranmer insurge os conservadores britânicos, que vêem nele um exemplo dos absurdos a que conduz a obsessão do politicamente correcto.

A ex-ministra conservadora Ann Widdecombe manifestou-se “absolutamente chocada” com a decisão das autoridades da Royal Navy. «É evidente que o satanismo é mau. O respeito pela liberdade de confissão religiosa não significa que deixemos o satanismo alastrar no seio das nossas forças armadas» – disse.

A imprensa tem publicado opiniões de alguns especialistas na área das ideologias satânicas. Estes lembram que o satanismo de La Vey é uma ideologia do egoísmo e do hedonismo, que incentiva a desprezar e utilizar os outros.

Chamam a atenção para o culto da violência e do uso da força, o que no caso de um soldado pode conduzir a tragédias. É difícil imaginar que um seguidor do satanismo funcione normalmente em trabalho de equipa ou aceite o princípio da obediência no quadro do esquema hierárquico militar.

Abrir as portas dos quartéis ao satanismo só poderia reforçar os desvios que as forças armadas devem sempre evitar, tendências como a tortura e humilhação de recrutas ou prisioneiros. Não faltou também quem alertasse para o risco de colocar nas mãos de um homem que se declara livre de condicionamentos morais conhecimento de técnicas militares que poderia mais tarde usar como civil em atentados bombistas ou assassínios.

A decisão tomada pelas autoridades da Marinha Real britânica decorre apesar de tudo de uma determinada lógica: já que a ideologia moderna da esquerda defende toda e qualquer diferença e foge a avaliar opiniões e opções do ponto de vista ético, por que razão haveria de usar de outra medida para o satanismo?

Até porque a profunda descristianização e laicização operada na sociedade britânica, torna-a insensível aos perigos de uma ideologia particularmente aversa ao cristianismo como é o satanismo.

Na moderna cultura, descrente da existência do demónio, uma declaração de fé de um seguidor do satanismo é tratada como uma excentricidade inocente.

O caso Cranmer mostra que o princípio laico da igualdade de todos os cultos pode ser estendido também ao satanismo.

E talvez ao satanismo em especial, já que “o inimigo do meu inimigo meu amigo é”: a aversão ao catolicismo propagada nas sociedades ocidentais faz do satanismo uma ideologia “simpática” e de todos os seus críticos “elementos reaccionários” saudosos de um mundo “limitado” pelo catolicismo “retrógrado”, onde a moral católica impede o homem de transgredir “em liberdade” todas as regras, dogmas e tabus.

A eventual tentativa de expulsar Chris Cranmer da Marinha Real britânica, seria imediatamente atacada como perigosa ameaça à liberdade de expressão e de convicções, uma bandeira que serve para encobrir… o próprio príncipe do mal e todos os agentes da civilização da morte.

Cranmer pode celebrar descansado o seu culto de adoração ao “inimigo do género humano”. Pelo menos enquanto na Grã Bretanha o poder está nas mãos da esquerda, que protege cada minoria, seja qual for o desvio ou patologia que defenda.




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