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Crise de valores

Quando por toda a Europa se discute uma nova axiologia de valores, que levaram ao espectro e desencanto, que todos sentimos, as plateias alemãs enchem-se com um filme, que – há mais de dois meses – tem sido exibido em todos os cinemas e foi galardoado no Festival de Cannes.

N/D
15 Dez 2004

Trata-se daqueles que nos põem a pensar e reflectir perante a inversão e crise de valores, a que todos assistimos.
Três amigos – Peter, Julie e Jan -, imbuídos de ideais dos anos sessenta, de Che Guevara, que lembram os novos Yuppyes, arrogando-se de todas as liberdades, em desafio e contestação ao mundo velho capitalista da riqueza e da moral, dão-se à droga, ao roubo, destruição e reviravolta de todos os símbolos de riqueza em Berlim, apregoando que o tempo das vacas gordas já passou numa sociedade com um mundo injusto, e injusta distribuição da riqueza.

O seu escopo é destruir e roubar de noite vivendas apalaçadas de novos ricos e especuladores, liquidando-lhes ou revolvendo-lhes os bens. Fugindo da polícia, tudo corre bem…

Acabam mesmo por raptar um grande milionário, credor de Júlia, que, surpreendidos, não mataram por sorte, mas obrigaram a percorrer com eles o mesmo trajecto numa carrinha de montanha.

Após desafios e invectivas – em que muitos se fecham com as suas riquezas e não empregam os trabalhadores -, fogem com elas e os meios de produção para outros países -, obrigam-no a viver na sua cabana. São jovens cheios de idealismo, a sonhar com melhor distribuição de bens, mais justa e solidária, ansiosos de liberdade, sem compromissos, nem peias, abertos a tudo, mesmo dispostos a assassinar.

Abandonaram precocemente a família e correram todas as aventuras e liberdades, fugindo mesmo a todas as tricas da justiça e sem compromissos.

Nesse rapto, em que o milionário inteligente, que investira todo o seu dinheiro para ser feliz e ter liberdade, vê–se agora numa masmorra de bandidos, enclausurado e vítima, partilhando da sua vida e aventuras, perdendo todo o contacto com a sua família, um prisioneiro. Os diálogos são de um realismo impressionante e a argumentação desses jovens é contundente.

Querem ser livres e viver conforme os padrões que lhes mostrou o capitalismo neo-liberal. Não têm tempo para estudar, nem para investir na sua formação…tudo foi de quimeras. Vivem da inveja e do ódio perante o luxo do mundo capitalista, cada vez com mais privilegiados… Vislumbram este mundo a desmoronar-se (Die fetten Jahre sind vorbei – “O tempo das vacas gordas já passou!”) E agora?!…

Olham para as montanhas, sonham com os ideais e a felicidade da infância, com férias em oásis paradisíacos de mar ou de montanha, mas a riqueza desapareceu do seu país… Vão para a Suíça dos yachtes, roubam mesmo um para as suas viagens de liberdade e aventuras, depois de devolverem o rico à sua família, após uma odisseia dolorosa….

Há contudo um diálogo, que gostaria de salientar:

– Como conseguiste tanto dinheiro para teres esta fortuna incalculável e um bom automóvel?

– Porque sou inteligente, usei dos meus talentos e investi no bom tempo!…

– Mas, em vez de tanto luxo, não poderias ter construído uma fábrica moderna e dar emprego a tantos jovens?!…

– Sim, é verdade. Também o reconheço e que se procura a riqueza para ter mais liberdade. No entanto, hoje convosco na cabana e, por vezes, sinto-me numa prisão!…

O realismo de imagens, transpostas com algumas metáforas e alegorias cinematográficas, em planos muito bem focados, num mundo idílico de paisagens físicas e humanas, paradoxal… com linguagem aberta é uma séria e profunda reflexão para o nosso tempo.

Ao olhar para Portugal – sempre aos papéis!… – de auto-estradas, cheio de alcatrão e cimento -, com casas – vivenda, apartamentos vazios e outros alugados, cujos ” Xicos espertos” nem pagam as rendas… nem há leis para as exigir… – com tantos jovens de telemóvel a estudar e outros no desemprego, em balanço de uma Europa, que vimos como Pai Natal das farturas -…, mas sem natalidade, sem casamentos estáveis, nem condições para ter filhos, nem tecnologia abalizada e com escolas cheias de diplomados a alimentar fantasmas de ilusões… lembrei-me do meu tempo: de disciplina, reflexão, de sonho, mas de preparação séria, apurada, comedida, que se ministrava nas escolas. Rompia-se os fundilhos das calças, sem rádios nem notícias, nem computadores: um tempo do silêncio para a oração, estudo e contemplação.

Mais tarde, tudo isso seria rentabilizado, não com sentimentos de inveja, nem de destruição, mas de trabalho afincado e honesto, dispostos a estudar línguas estrangeiras, a abrir outros horizontes, como pronto a denunciar a modorra social, económica, política e até religiosa, em que sempre vivemos.

Não teria sido um bom investimento? Todavia com muito trabalho e esforço. Se não se rentabilizou mais o económico, foi por certa discrição e humildade, mesmo assim refreada por uma Igreja, que nos ensinou sempre a ser pobres… ou miseráveis?!

O tempo do Natal fala-nos da pobreza do Menino e da miséria dos homens numa sociedade, em que, com alguns políticos e ideo-logias, seremos todos mais miseráveis, recusando-o das hospedarias.

Mas isto não é a pobreza cristã: talvez a miséria nacional do espírito de novos pelintras, que nos ideais de um Socialismo de lorpas, nos tem feito a todos mais invejosos, indisciplinados e doentes.

Será assim que queremos viver, numa Europa, que, de cada vez mais tem pena, mas não se compadece de Nós? É que, infelizmente, muitos limitaram-se a ser os jumentos a transportar o Menino a Belém, mas não os guardas da sua mensagem de Amor e Fraternidade.

Por isso muitos políticos se habituaram e ensinaram a ver apenas o burro, cujo comportamento e função não aprenderam ainda a ultrapassar. Mas será essa a sua função; a alguns não lhes podemos exigir que vão muito mais além…

De quem é a culpa? Mesmo assim, cumprirão a sua função?!…

Mas só se rivaliza com jumentos, num país de burros!…




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