Fotografia:
Os “novos evangelistas”

Não acreditamos que tais “evangelistas” façam dano em quem quer que seja, muito menos nos católicos de convicção

N/D
13 Dez 2004

A vida de Jesus Cristo tem apaixonado, ao longo dos tempos, prosadores, poetas, pintores, homens do teatro e do cinema, gnósticos e agnósticos, crentes e ateus. Se bem observamos, o que mais tem sido investigado pelos estudiosos é a sua vida particular, principalmente a natureza dos seus amores com Maria Madalena.
Os seus poderes divinos, ou extra-sensoriais, conforme nos situemos na fé ou fora dela, não têm sido objecto de grandes narrações destes “novos evangelistas”. Foi tarefa doutros Evangelistas. Também a tragédia do seu martírio tem sido focada mais como sofrimento humano e muito menos como sofrimento divino. Ultimamente muitos interrogam muitos outros sobre o que Ele teria feito antes de se tornar figura pública.

Por isso é que aparecem nos escaparates das livrarias, ou nas bancadas das grandes superfícies comerciais, cada vez mais livros ou tratados, directa ou indirectamente relacionados com a vida de Jesus, antes dos 33 anos. O Código Da Vinci é um destes, tão polémico ou talvez mais ainda do que o Evangelho segundo Jesus Cristo, de Saramago. Mas há mais: A Verdadeira História de Jesus, A Irmandade do Santo Sudário, O Porteiro de Pilatos, O Segredo do Papa. Não sabemos se há mais.

Sintoma de tempos em crise de fé? Um novo interesse? Já lemos alguns dos livros citados, como compete a quem tem a ideia de comentar. Sem querermos desde já estabelecer uma relação de semelhança entre estes “novos evangelistas”, diríamos que todos são romancistas e, sem excepção para ninguém, todos se refugiam numa criação fabuladora. Para nós, talvez A Verdadeira História de Jesus seja, de todos eles, o mais cauteloso na fantasia da sua interpretação.

Mas, muito para lá destes aspectos, sempre discutíveis, estes escritores da vida de Jesus Cristo vieram mexer nas águas do lago que estavam paradas; meteram as mãos na quietude e as águas tornaram-se revoltas. Foi bom escreverem sobre essa figura assombrosa que atravessou vinte séculos sem deixar que os positivistas o “matassem”.

Estes “evangelistas” acordaram a letargia que se ia instalando, ressuscitaram as tertúlias onde se discutia a existência ou inexistência de Deus, da verdade ou inverdade de Jesus Cristo como Messias, do Messias milagreiro ou do Messias divino e, indo ao fundo do baú do tempo, trouxeram para a actualidade a disputa que amortecia, que era candeia de luz pálida e andava instalada nos conformismos da coisa feita. Mais vale que digam mal de nós do que nos esqueçam por completo.

Fizeram saltar a centelha do lume mortiço. Pode virar labareda. O caruncho das rotinas apodrece por dentro. Não acreditamos que tais “evangelistas” façam dano em quem quer que seja, muito menos nos católicos de convicção. E aqui socorremo-nos de uma legenda cinematográfica que fazia introdução ao filme Fátima, Terra de Fé, julgamos que de Leitão de Barros, e que dizia assim: «Para os que acreditam nenhuma explicação será precisa; para os que não acreditam nenhuma explicação será possível».

Ora, com os “evangelhos dos novos evangelistas” vai dar-se precisamente a mesma situação. Locke, Kant ou Hamilton não ficariam mais agnósticos depois de lerem O Evangelho de Saramago, nem Santo Agostinho, Santa Teresa de Ávila ou São Sebastião perderiam a sua fé se lessem O Código Da Vinci.

Os índices de credibilidade encontram-se, em nós, formulados nas nossas convicções e aí já fizeram ninho.




Notícias relacionadas


Scroll Up