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O relatório PISA e alguns problemas educativos

Chegaram esta semana às páginas dos jornais portugueses e estrangeiros os resultados de uma avaliação de 275 mil estudantes de 15 anos de 41 países de todo o mundo, submetidos a um exame de seis horas e meia que permitiu apreciar a compreensão da escrita, a cultura matemática e a cultura científica.

N/D
12 Dez 2004

O Relatório do Programme for International Student Assessment (PISA) indica que os resultados portugueses estão abaixo da média. Nada de novo, portanto. Incapazes de atingir a mediania foram também, por exemplo, os estudantes espanhóis e italianos. Os italianos, aliás, deram-nos um triste consolo ao demonstrar que possuem mais dificuldades de compreensão da escrita do que os portugueses.

O responsável pelo Relatório PISA, uma iniciativa da OCDE que pretende avaliar a saúde escolar internacional, Andreas Schleicher, comentou os resultados numa interessante entrevista que o diário espanhol “El País” publicou na terça-feira. O que Schleicher disse vem, de algum modo, contrariar o que, nos tempos mais recentes, tem sido, em vários aspectos, a doutrina oficial portuguesa em matéria educa- tiva. «A educação não pode ter êxito pressionando as crianças, por exemplo com exames», garante Andreas Schleicher. É que, hoje, o êxito reside fundamentalmente na capacidade para aprender ao longo de toda a vida. E o que sucede é que essa capacidade não existirá se os alunos não tiverem motivação própria.

Referindo-se ao que se passa nos países com piores resultados no relatório PISA, Andreas Schleicher refere que «o problema da educação hoje reside no facto de ela se centrar em campos muito estreitos de conhecimentos cognitivos». O responsável da OCDE dá conta do seu empenho em demonstrar que o êxito das pes-soas não se baseia apenas em saber ler e contar. Saber resolver conflitos, assumir responsabilidades ou trabalhar em grupos heterogéneos revela-se também de uma inestimável importância. Medir isto, acrescenta Schleicher, é muito difícil, mas é preciso valorizar estas competências no momento em que se realizam avaliações. Inúmeros pedagogos têm vindo a dizer o mesmo: o ensino não pode ser apenas “dar matéria”, que os alunos enfiam na cabeça para depois reproduzirem nos testes e, a seguir, a esquecerem.

A escola, escrevia há tempos Manuel Viegas de Abreu, professor catedrático da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, valoriza os que, segundo critérios da reprodução do saber, obtêm melhores classificações. «Os melhores são os que fazem melhores exames. A sociedade espera a selecção e atribui essa tarefa à escola.

A escola tinha a actividade de avaliar o progresso que os alunos iam fazendo no seu desenvolvimento pessoal – ou seja, uma avaliação formativa, que é indispensável ao progresso das actividades de ensinar e aprender. Já que a escola fazia a avaliação formativa tão bem, a sociedade pediu-lhe que ela juntasse a essa avaliação formativa uma classificativa».

No final do século XIX e princípio do século XX, as empresas e a administração pública necessitavam dos melhores diplomados pelas escolas e, como não tinham recursos para seleccionar os melhores, pediram à escola que o fizesse, recorda Viegas de Abreu. «E ela aceitou esta missão de classificar, seleccionando os melhores. Infelizmente, a missão continua. Foi uma necessidade histórica e social, muito marcada no tempo, mas que ainda permanece».

Entre os erros que Andreas Schleicher observa nas políticas educativas dos países com piores resultados no PISA, encontra-se o turbilhão legislativo que permanentemente assola os estabelecimentos de ensino. Se se observar o sistema educativo mais bem sucedido do mundo, o da Finlândia, verificar-se-á que todo o seu programa de estudo está num simples folheto.

As questões educativas não se resolvem com leis, prossegue Schleicher. As normas são importantes, mas o que é verdadeiramente necessário é ter uma visão estratégica dos resultados que se pretendem. «É necessário um consenso nas nossas sociedades sobre as competências que queremos para que haja êxito social e pes-soal». E, finalmente, é preciso fortalecer a capacidade de as escolas promoverem uma educação individualizada.

Andreas Schleicher enfatiza bastante a importância de uma educação individualizada. Ao desenvolver um modelo que consente que os alunos estudem de acordo com ritmos próprios, as escolas conseguem simultaneamente compensar as situações de desvantagem dos que têm mais dificuldades e desenvolver o potencial dos que têm mais talento.

Schleicher não está a dar palpites. O que ele faz é, apenas, dar conta do caminho seguido nos países que melhores resultados têm alcançado no âmbito educativo. Um caminho que, de resto, nem parece nada complicado.




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