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Vencer o Medo e a Tentação da Demagogia

Para além da obrigação de reagir aos diagnósticos já apresentados, mostra-se imperioso (será pedir muito?) que o próximo governo contribua para vencer o medo e resista à tentação da demagogia.

N/D
11 Dez 2004

O ritmo da vida política do país para os próximos meses tem aceleração anunciada. Iremos a votos, previsivelmente para Fevereiro, e, depois de baralharmos a composição da Assembleia da República, iremos assistir à formação de um novo governo.
Mais do que a legitimidade constitucional ou a pertinência política da decisão de Sampaio em dissolver o Parlamento e convocar eleições, causa estranheza a muita gente, que a “crónica desta morte anunciada” (o Governo) tenha que estender-se tantos dias pelos jornais até que, com olímpica placidez, o presidente comunique o que, de uma forma ou de outra, já todos conjecturaram. Porém, porque esta temática (a dissolução) já é passado antes de ser esclarecida – quando escrevo, Sampaio ainda não esclareceu -, interessa-me mais enquadrar o futuro próximo da nossa governação.

Já muito se tem escrito acerca dos males de que sofre o país, bem como acerca das vias de solução possíveis. Em diversas ocasiões, neste espaço, com toda a modéstia, mas também com algumas certezas resultantes da recorrência histórica das crises, tenho, pela minha parte – de alguma forma contribuindo para o debate -, procurado esboçar as causas do mal, assim como perspectivar algumas saídas.

À esquerda e à direita, as vozes mais sóbrias não divergem muito acerca da gravidade da situação que o País vive, mormente nos planos económico e social. Uma notória divergência reside na “célebre” retoma que de há muito este e o precedente Governo vislumbram em andamento crescente, enquanto que as oposições entendem que a mesma tem tanta consistência como as miragens dos “náufragos” do deserto, no que merecerão o acordo, resignado, dos muitos desempregados vítimas do enfraquecimento da economia.

Mesmo quanto ao rumo a adoptar para vencer as dificuldades, descontado o enfoque nas prioridades a estabelecer ou a credibilidade dos proponentes – ainda à esquerda e à direita -, também não encontramos assinaláveis divergências. Bastará lembrar que o governador do Banco de Portugal (um socialista) convergiu repetidamente com a ex-ministra das finanças, M. Ferreira Leite, na necessidade de contenção na despesa pública e na importância de garantir um défice de 3%. Agora, curiosamente, as críticas do PS a este orçamento, entretanto aprovado (que vozes díspares, passando pelo patronato e pelos sindicatos, desdenham), passam também pela acusação de o mesmo abandonar o rigor que continuaria a ser exigível.

A necessidade de produzir mais e melhor e a correlativa importância da educação e da formação profissional, uma maior eficácia nos domínios da saúde e da justiça, o combate à fraude e à evasão fiscal e até – pasme-se! – a necessidade de melhorar a qualidade média dos actores políticos (tudo isto) merecem o acordo de muitas cabeças, designadamente nos interior dos partidos que têm circulado pelo governo central.

Porém, o País continua a pensar e, de tantos estudos encomendados ou perspectivados para as reformas a adoptar, corre o risco de ficar ensimesmado, adiando a mudança e atrasando-se cada vez mais – porque pára enquanto que outras nações se adiantam, mesmo que progredindo moderadamente.

Embora a cerca de dois meses de distância, a crer nas sondagens e na maioria dos comentadores da política nacional, perspectiva-se um retorno do PS ao poder. Se nos recordarmos que Bill Clinton venceu as suas primeiras eleições nos EUA (1992) com um slogan em que enfatizava a importância da economia para as pessoas – it’s the economy, stupid! -, face à pobreza dos indicadores recentes da economia no nosso país, tal parecerá plausível. De facto, a história das democracias mostra que o eleitorado tende a imputar ao poder político em funções o estado do presente (bom ou mau), ignorando as repercussões da conjuntura internacional ou eventuais responsabilidades de governos precedentes.

Não há, contudo, vencedores antecipados. Ainda há meses atrás, em Espanha, contrariando todas as sondagens, o partido do Governo perdeu as eleições embora tivesse a seu crédito uma economia pujante (o choque resultante dos atentados de 11 de Março e a percepção de que o Governo procurara manipular a informação sobre os mesmos, terão sido determinantes para a inflexão das intenções de voto, à boca das urnas). Em Portugal, para o PSD (ou para o PSD e CDS/PP, no caso de adoptarem listas de deputados comuns) acresce como desvantagem apresentar como candidato a primeiro-ministro nas próximas eleições uma figura, Santana Lopes, que na liderança do Governo cessante teve um desempenho tido por medíocre por muitos comentadores, empresários e “senadores” do nosso panorama político, sendo que alguns destes juízos foram expressos por conspícuos militantes do PSD.

De forma assemelhada, em 2002, o fantasma da imprestabilidade que caracterizou o último governo de Guterres ensombrou decisivamente o desempenho eleitoral do PS que assim, quase naturalmente, perdeu as eleições.

O diagnóstico está, pois, efectuado. Ninguém já espera a fartura na próxima estação, mas quase todos estarão cansados de discursos que remetem para os governos anteriores a responsabilidade do empobrecimento do momento. As célebres palavras de Roosevelt, na tomada de posse como presidente dos EUA, em Março de 1933, incitando os seus compatriotas a reagirem à enorme crise económica em que o país estava submergido, podem ainda constituir-se numa exortação válida – tal como os americanos, então, também nós, hoje, a única coisa de que devemos ter medo é do próprio medo. Igualmente útil se mostra lembrar as célebres palavras de Churchill aos ingleses, em Maio 1940, quando, perante a guerra instalada, promete a vitória, mas, sem demagogia, também prevê sangue suor e lágrimas.

O actual contexto português não se mostrará tão assustador e grave como aquele que então fora encontrado por Roosevelt ou Churchill, mas, mesmo assim, para além da obrigação de reagir aos diagnósticos já apresentados, mostra-se imperioso (será pedir muito?) que o próximo governo contribua para vencer o medo e resista à tentação da demagogia.




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