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O «progresso» do nosso mundo rural

É altura de dizer basta; a nossa juventude não pode estar a ser deteriorada desta forma, sem que ninguém se importe de ir à raiz do mal. Não é sobre o consumidor que deve cair a pena, mas sim sobre o traficante e passador.

N/D
11 Dez 2004

Não vou falar, como é óbvio, no saneamento básico, na distribuição de água ao domicílio, na comodidade das habitações, na rede de luz eléctrica, nos caminhos confortavelmente transitáveis, como sinais de progresso do nosso mundo rural. Vou referir-me a outro tipo de progresso.
Não deve haver aldeia ou vila por muito atrasada que seja que não tenha a sua discoteca – nisto consiste o dito «progresso». Pode não ter farmácia, nem Centro de Saúde, nem Escola, nem Hospital, mas o «antro» da discoteca não falta.

Antigamente, por exemplo ao Domingo ia-se à Missa de manhã e depois era um tempo de amena cavaqueira entre parentes, conhecidos e amigos. De tarde os mais velhos reuniam-se para jogar o dominó, o bilhar, as cartas, etc., enquanto os mais novos jogavam o tradicional jogo da malha. À semana, depois de uma pesada jornada laboral o que apetecia era passar pelo barbeiro ou pela farmácia para saber as últimas novidades – eram o telejornal lá do sítio e depois recolher a casa para cear e descansar. É verdade que alguns se perdiam pelas tabernas e já atinavam mal com o caminho para casa.

E agora? O ponto obrigatório de reunião da gente nova é a discoteca, mesmo à semana. Aos fins-de-semana nem é bom falar – começam às horas que já deviam estar a dormir e deitam-se quando os outros já se levantaram e o sol já vai alto. Nas referidas discotecas não vislumbro nada de bom: é o som estridente que não deixa conversar, mas berrar uns com os outros; as luzes alucinantes que apagam e acendem em cores variadas; mas é sobretudo o consumo generalizado de bebidas altamente alcoólicas, com misturas verdadeiramente explosivas.

Para piorar mais as coisas em muitos desses lugares trafica-se e consome-se droga cujos efeitos maléficos são potenciados pelo álcool. Agora a moda recai muito lamentavelmente nos comprimidos de fabricados quimicamente que são mais baratos, mas altamente perigosos podendo chegar a ser mortais. É o caso do “ecstasy”. Este proporciona um tal vigor que quem o consome pode estar uma noite inteira no “abana capacete”, sem sentir fadiga. Provoca imensa sede e se o indivíduo não beber pode morrer. Assim, empresários de discotecas sem escrúpulos, fecham as torneiras das casas de banho para obrigar ao consumo de água engarrafada que custa bom dinheiro.

Como se isso não bastasse um «cérebro iluminado» descobriu um produto que torna o “ecstasy” ainda muito mais perigoso. Os comprimidos não são ingeridos com água, mas com qualquer bebida alcoólica e como produzem uma enorme libertação de energia, os consumidores juntam-lhe cocaína e haxixe para diminuir o efeito estimulante. A mistura é altamente é destrutiva para o consumidor, por isso nós vemos jovens com ar de velhos e aspecto decadente – falta-lhes a frescura de uma vida sadiamente vivida.

Os comprimidos de “ecstasy” são «relativamente» baratos e assim os jovens que, coitadinhos, não têm dinheiro para pagar as propinas no Ensino Superior ou acham «exorbitante» o preço das refeições nas cantinas das Escolas Básicas e/ou Secundárias, lá vão arranjando dinheiro para gastar, pelo menos aos fins-de-semana, nas discotecas.

Ultimamente foi aprendida uma enorme quantidade desses comprimidos entre nós. E se fossem para o mercado consumidor? Quantos prejuízos podiam causar à saúde dos mais jovens? Isso parece não importar aos fabricantes a quem só importa o lucro, mesmo à custa dos danos físicos e psíquicos que causam nos jovens consumidores.

É altura de dizer basta; a nossa juventude não pode estar a ser deteriorada desta forma, sem que ninguém se importe de ir à raiz do mal. Não é sobre o consumidor que deve cair a pena, mas sim sobre o traficante e passador.

Faço um apelo às autoridades deste País. Não se cansem de passar a pente fino os estabelecimentos nocturnos. Aí encontram não só jovens que não têm a idade legal de entrada, mas os que vivem do negócio, não sendo, muitas vezes, consumidores pois só lhes interessa o lucro e não olham a meios para chegar aos fins. Se assim não for estamos a destruir a nossa maior riqueza – uma juventude que devia ser saudável, mas apresenta um ar e um comportamento decadente.




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