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Chover no Molhado (51)

Cada um está bem, onde estiver a sua mente e o seu coração. Se a mente e o coração estiverem em Deus, está bem em qualquer parte.

N/D
11 Dez 2004

Os factos parecem comprovar, à saciedade, a necessidade de estabelecermos a unidade entre a pluralidade das nossas diferentes potencialidades e a necessidade de estabelecermos um bom, ajustado e progressivo relacionamento com a realidade total. Este relacionamento é de eu comigo mesmo; eu com o outro que se cruza comigo no caminho que trilhamos; eu com toda a povoada natureza de seres que me envolvem e circundam; eu com Deus.
Mas não tenhamos a veleidade de reduzir ou querer reduzir a realidade só a necessidades. Isto é muito característico do neurótico obsessivo. Há tempo para tudo. Há tempo para nos entregarmos as obrigações, como o há também para desfrutarmos das nossas distracções, brincadeiras e passatempos. O que parece destoar é a distracção querer excluir ou marginalizar a obrigação ou a obrigação querer excluir ou marginalizar a distracção. As duas têm de saber conviver entre si, em unidade; e, no interior da unidade, em harmonia; e, no coração da harmonia, em recíproca cooperação e interdependência. Assim o exige o nosso espírito.

O saber conviver em harmonia e cooperação reclama, peremptoriamente, a exigência recíproca da sua observação e obediência à medida e à liberdade, bens estes de que temos medo e lhes fugimos. Assim surge a miséria, destoa a harmonia, esfrangalha-se a unidade e endurecem a cooperação e a interdependência.

De onde vêm o destoamento, o endurecimento e a pulverização da unidade? Numa só palavra, de onde vem o desespero? Da discordância interna da pessoa consigo mesma. Vem da própria pessoa, quando esta deixa de ser ela mesma. E, mesmo sem querer, espalha sempre as brasinhas da sua má disposição em qualquer ambiente onde se encontra. Por isso, queixam-se de maus tratos a medida e liberdade. E depois, como a estrela boieira, cintila o mal. Alteia-se o desespero. Esvoaça a angústia. Alastra o sofrimento.

Quem estimula esta discordância interna da pessoa consigo mesma? É a força da tentação, que vai pedir a mão à imaturidade e fraqueza da pessoa. A tentação é enganadora; é sedutora, é ilusão; é ópio que estonteia; é droga que gratifica, mas destrói e mata. Eis a ruína. Uma outra força, porém, lhe barrará o caminho. Não digo, para já, que é a fé em Deus, mas a forca da superação.
“Não nos deixéis cair em tentação… mas livrai-nos do mal”. Esta é a oração que o Senhor nos ensinou.

Cada um está bem, onde estiver a sua mente e o seu coração. Se a mente e o coração estiverem em Deus, está bem em qualquer parte. Esta qualquer parte pode ser o mundo interior e muito pessoal. Pode ser o mundo exterior e social. Pode ser o mundo geográfico, a natureza povoada de seres existenciais.

Diluam-se as resistências que separam e isolam estes mundos de se encontraram em Deus. Evitem-se os curtos-circuitos provocadores de faíscas incendiárias, reduzindo tudo a cinzas e escombros. Isto é o caos, imagem do pecado. Esta, diz Tomás de Aquino, é a vivência destes mundos, na ausência de Deus. E viver uma relação desajustada com Deus é viver, diz Kierkegaard, uma relação desajustada consigo mesmo. É a queda estrondosa no poço do desespero. E não se libertar do desespero é pecado, diz o mesmo filosofo.




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