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As lanternas de Nietzsche e o Advento

Ainda hoje, em quase todas as casas alemãs, nas janelas e ruas, durante o Advento, acendem-se velas e lanternas – talvez alguns ignorando até o facto histórico do nascimento de Jesus

N/D
10 Dez 2004

Em tempo de Advento, como de expectativa e de esperança, essa que só nos pode vir do transcendente, como corolário e frustração de tantas esperas humanas, que nos levaram ao desespero e desencanto, seria bom recordar de novo Nietzsche.
Segundo este autor, «Deus morreu» e o homem deve ser transcendido, pois não passa de uma corda bamba entre o macaco e o super-homem futuro. Este anúncio, há mais de cem anos descrito pelo filósofo solitário de Engadin, mais ou menos parafraseado por gritos e desabafos de outras cassandras, não pretende significar que Deus não existe, mas a sua morte parece ter sido um facto “histórico”, ocorrido no tempo, pois que os homens deixaram de crer nele, a religião cristã entrou num ocaso irrecuperável, e com ele a sua divindade, una e trina, perdeu a substância.

O perigo maior desse desmoronamento metafísico, axiológico, espiritual ou religioso está no nihilismo, perante o qual é preciso ir mais além da situação crítica em que a Europa se achava no século XIX, de modo a concitar uma transformação vital e viril com transmutacão de valores que evite os homens de tornarem-se idólatras de falsos valores como o Estado (a idolatria estatal, o totalitarismo, presente já no jacobinismo, a Nação e o seu desfile de ódios xenófobos, delírios como o pangermanismo, chauvinismo, anti-semitismo) e outros não confessados, mas também sinistros…

Nietzsche, como grande profeta e europeu, aparece assim como o grande diagnosticador das temerosas crises da Europa, repetindo-se de vez em quando.

Karl Jaspers diz: «É possível encontrar em Nietzsche, para cada juízo, o seu contrário.

Dir-se-ia que ele tem sobre todas as coisas duas opiniões. É por isso que se pode invocar passagens de apoio a ideias na aparência mais inconciliáveis. A maioria dos partidos pode abrigar-se detrás da sua autoridade: ateus, crentes, conservadores e revolucionários, socialistas e individualistas, sábios metódicos e sonhadores, homens políticos e apolíticos, espíritos livres e fanáticos».

É, pois, um pensador ambíguo e paradoxal, cujos escritos não deixam de perturbar, provocar e inspirar, mesmo quando desagregam as mais íntimas convicções e credos. Homem de extremos, mas de uma lucidez meridiana, que conspira contra todas as ingenuidades, falsidades e mitos inconsistentes.

Ao anunciar a morte de Deus, a decadência dos valores morais e metafísicos, advogando e preconizando uma purificação, transmutação de valores com uma nova fé europeísta, prevenindo dos holocaustos e perversões hediondas do seu tempo, apela à criação de um homem mais viril – Sobre-homem ou super-homem – e não uma mera ponte entre este mundo e o transcendente, apresentando a profilaxia e medicina adequada para uma metamorfose e metástase de valores vigentes, índices de cansaço.

Reportando-se ao Salmo 14 de David – «O insensato diz em seu coração: – Não há Deus!» -, Nietzsche descreve em A Gaia Ciência (1882) esse trespasse rico apresentado por um tresloucado, ironicamente chamado Der Tolle Mensch – o qual, depois de ter acendido uma lanterna e correr pela praça pública, à procura de um homem, se pôs a perguntar por Deus, e, por fim, ele mesmo decidiu anunciar que ele desaparecera, tirando daí a consequência mais imediata para uma humanidade tresmalhada, que perdera a fé e por isso responsável do seu “assassínio”, afirmando, em paródia, melhor ouvida, que sentida: «Quem o matou fomos nós todos nós, vós mesmo e eu! Os seus algozes somos nós todos! E como o fizemos?

Como conseguimos engolir todo o mar? Quem nos deu a esponja para apagar todo o horizonte? Que fizemos nós quando soltámos a corrente que ligava esta terra ao céu?

Para onde se dirige ela agora? Para onde vamos nós? Não estaremos errantes através de um nada infinito? Não estaremos a sentir o sopro do espaço vazio? Não estará a ser noite para todo o sempre, e cada vez mais noite? Não teremos de acender lanternas em pleno dia? Será que ainda não ouvimos o ruído que fazem os coveiros a enterrar Deus? Deus permanece morto! (Gott bleibt tot) E quem o matou fomos nós!

Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? Quem nos limpará deste sangue? Qual a água que nos lavará?» (Nietzsche, A Gaia Ciência, Lisboa, Relógio de Agua, 1998, p. 140).

Neste dramático grito lancinante, grotesco, melhor compreendido no contexto de então, fazia um aviso também a esta Europa a necessitar de grande transformação como apelo a um cristianismo, que vive de tradições, mas com velas como vidas apagadas em muitos cristãos, que deveriam ser testemunho mais digno do que acreditam…

Ainda hoje, em quase todas as casas alemãs, nas janelas e ruas, durante o Advento, acendem-se velas e lanternas – talvez alguns ignorando até o facto histórico do nascimento de Jesus, mas reagindo contra o que Nietzsche anunciava no seu simbólico e nas parábolas. Seja mesmo como chama crepitante ainda debaixo das cinzas, ou como chamariz consumista.

Nós, portugueses, limitar-nos-emos a fazer a mais alta árvore de Natal, em Belém? Mas para quem? Para os políticos que temos, e inglês ver?… Ou como sinal dos cristãos do país que somos, já que nem de Super-homens constituído?!… Aguardo a resposta.




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