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O preço do dinheiro

Não duvido de quanto a comunidade lucraria se viesse a público a história de certos dinheiros e o preço que se pagou por certos apoios e donativos

N/D
9 Dez 2004

Um curioso romance de Joaquim Paço d’Arcos, publicado se me não engano no início da década de sessenta, narra a história (ou estória?) de uma nota de banco.
Não deixa de ser elucidativo sabermos o que está por trás do dinheiro. Que preço se pagou por ele. Porque é que certas pessoas arranjam dinheiro com relativa facilidade.

Porque é que, como diz um povo, a uns parem-lhes os bois e a outros, nem as vacas.

Porque é que certas pessoas conseguem, com notória facilidade, mecenas e patrocinadores. Será por causa dos seus lindos olhos?

Ouve-se com frequência dizer que o dinheiro custa a ganhar. Pelo que se vê, a uns mais do que a outros. Até parece que a alguns não custa nada.

Em princípio, o dinheiro resulta de um trabalho honesto que se faz. Uma pessoa exerce determinada actividade e obtém, por isso, uma remuneração quantificada em euros.

Esta regra – a do dinheiro ganho com um trabalho honesto – admite excepções, e estas não são tão raras como por vezes se julga.

Não vou falar aqui do dinheiro adquirido à custa da abdicação da própria dignidade e da coisificação das pessoas, como é o caso de quem decide alugar o próprio corpo.

Não vou falar também do dinheiro que se adquire forçando a irem para a vida seres humanos que se controlam e exploram, convertendo as pessoas numa espécie de gado que se traz a ganho.

Não vou falar do dinheiro que se adquire através da prática do esticão que, além de privar as pessoas dos seus haveres, põe em risco a integridade física das mesmas.

Não vou falar do dinheiro adquirido através de tradicionais práticas criminosas, do dinheiro adquirido através do furto. Não vou falar também do dinheiro adquirido mediante o tráfico de droga ou o jogo ilícito.

Uma moderna – ou talvez não? – forma de conseguir dinheiro resulta do abuso do poder. Porque um indivíduo exerce determinadas funções pode conceder determinada autorização, pode influenciar determinada pessoa, pode fornecer informações que dão origem a lucrativos negócios, pode dar rendosas facilidades, pode fechar os olhos aqui ou ali. E tudo isto é devidamente compensado. Luxuosamente compensado.

Há apoios que se recebem porque se permitiu o que se não deveria ter permitido. Há apoios que se recebem porque se disse o que se não deveria ter dito ou porque se disse a este o que se calou àquele.

Há apoios que se recebem porque se abriram portas que deveriam ter permanecido fechadas ou, pelo menos, não deveriam ter sido abertas daquela maneira. Há quem receba apoios porque se hipotecou ou hipotecou instituições que deveria ter servido mas de que habilidosamente se serviu ou cuja independência deveria ter preservado mas não preservou.

Há quem receba apoios porque não denunciou o que deveria ter denunciado ou porque teve o arrojo de aplaudir o que, coerentemente, deveria ter condenado.

Falei, propositadamente, de dinheiro ganho, de dinheiro adquirido, de dinheiro obtido.

Para mim, só tem valor o dinheiro ganho honestamente.

Não vou repetir as memórias de uma nota de banco. Mas não duvido de quanto a comunidade lucraria se viesse a público a história de certos dinheiros e o preço que se pagou por certos apoios e donativos.




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