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Portugal acabrunhado

Julgo que o Dr. Jorge Sampaio não terá esgotado todos os meios para garantir a estabilidade política de que é defensor acérrimo

N/D
7 Dez 2004

Portugal tem assistido, nos últimos anos, a diversos acontecimentos que têm levado a generalidade do seu povo a um estado de melancolia, senão mesmo de quase depressão colectiva, que se retrata nos gestos simples e se pode apreciar nos comportamentos mais comuns.

Infelizmente não se trata de uma maleita recente. É um estado de alma a que nos conduziu uma variedade de factos que, ciclicamente, vão surgindo aqui e além. Entre muitos outros, porque mais mediáticos, poderemos citar os casos Casa Pia, Felgueiras ou Apito Dourado. Mesmo a prometida e já assumida dissolução da Assembleia da República dá que pensar pelo rol de consequências que consigo arrasta.

Estas serão apenas algumas causas da instabilidade emocional que, em diferentes níveis, a todos vai contagiando. A sua responsabilidade pelo estado de desalento e de incerteza é uma realidade que se vislumbra no desempenho individual e colectivo, constrangedor do desenvolvimento que urge prosseguir com afinco, sob pena de continuarmos a hipotecar o futuro do país em cada dia que passa.

As mudanças fundamentais a levar a cabo em áreas essenciais como a Justiça, a Economia, a Administração Pública ou a Saúde a não serem concretizadas levarão o País a uma situação de degradação social de efeitos imprevisíveis e conduzir-nos-á, mais cedo ou mais tarde, a um fosso de que muito dificilmente emergiremos.

Perante o avolumar destas e de outras situações, o cidadão comum vai perdendo as suas referências e aceitando sem relutância uma total inversão de valores. O que agora conta é o presente, o mais fácil e o imedia-to sem questionar os caminhos.

Estes nem sempre serão os mais lineares e escorreitos. Importa resolver a situação de momento, sem olhar a meios nem aquilatar as consequências. Tem-se vindo a perder o sentido racional e ético da utilização dos recursos, atendendo pouco ou mesmo nada ao que poderá advir.

Chegados a este estado de letargia pantanosa em que estamos atolados, resta-nos a esperança de que o tempo próximo ilumine os timoneiros deste povo acabrunhado. Que possuam a sabedoria e tenham a lucidez e a coragem suficientes para nos conduzirem a um futuro menos sombrio.

Que a abrupta suspensão do ciclo de governação, que deveria terminar em 2006, constitua um tempo de reflexão tranquila e não venha a ser mais um motivo para engrossar o caudal de frustração e desencanto.

Acredito que a clarificação pretendida pelo Senhor Presidente da República venha a ser um facto insofismável. Contudo, ninguém poderá excluir cenários bem diferentes.

Julgo que o Dr. Jorge Sampaio não terá esgotado todos os meios para garantir a estabilidade política de que é defensor acérrimo. Com o seu acto, respeitável e legítimo, de dissolução do Parlamento, onde existia uma maio-ria coesa, carregou também um fardo bem pesado que poderá ter de suportar até ao fim do seu mandato.

É que esse poder, ao invés de vir a desembocar numa realidade bem definida, poderá precipitar uma situação muito diferente. Nessa altura todos perderíamos mais uma vez e acrescentaria mais um episódio à tormenta em que vamos vivendo.




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