Fotografia:
Já passou, meu menino, já passou…

1- A época baixa dos fogos florestais – Por fins de Setembro acaba todos os anos a “época oficial” de fogos floresteis. E o Povo, que em geral tem memória curta (e coração de manteiga) vai gradualmente esquecendo as depredações e destruições ocorridas durante os 3 ou 4 meses do Verão.

N/D
7 Dez 2004

Os jornais, as rádios e as televisões, rapidamente metem o assunto na gaveta e não se ouve mais nada sobre os processos-crime relativos às dezenas ou centenas de indivíduos detidos (aliás, a grande maioria foi logo libertada).
Nem se procura saber quem foram os seus mandantes, nem quais os verdadeiros interesses criminosos, económicos ou políticos que lhes estão subjacentes. E nada interessa também aos media, saber o que o futuro reserva às imensas áreas de território assim devastadas (e só no ano de 2003 foi queimada uma área equivalente ao distrito de Leiria…).

2 – A limpeza dos matos – Iniciativas esporádicas e pouco convincentes, convenhamos, lá vão acontecendo aqui e acolá, nesta época baixa. Põe-se sempre o ênfase na “prevenção”, os governos prometem reforçar os parcos meios humanos e materiais, prometem distribuir melhor as tarefas entre bombeiros e protecção civil e os futuros Gabinetes Técnicos Florestais. Ameaçam-se os particulares que não cortam o mato (o Estado também não o corta…) e continua a imputar-se à falta de “limpeza” das florestas a origem da maioria dos fogos.

Ora como se adivinha, esta é uma falsa questão, pois o mato não arde por si; apenas favorece a propagação de qualquer incêndio ateado por mãos criminosas. Os arbustos, os tojos, as flores, os musgos, os cogumelos são uma riqueza natural em si mesmos, não podem nem devem ser totalmente eliminados. Fazem parte do eco-sistema, dão alimento e refúgio a uma miríade de répteis, mamíferos e aves, embelezam e perfumam a paisagem da nossa primavera, principalmente no Interior ou nas montanhas da costa.

Com certeza que parte dos matos deve ser cortada e retirada com regularidade. Mas não se deve desviar a atenção do povo em relação às verdadeiras causas dos fogos florestais. Que são a existência de uma teia de interesses económicos ilegítimos, a qual está na origem das dezenas de milhares de incêndios que ocorrem todos os verões no território português.

3 – A destruição da serra algarvia – Depois do que tem acontecido, sobretudo nos últimos anos, são já poucos os portugueses que duvidam da existência de uma “cabala” para a destruição gradual de toda a nossa floresta autóctone (de pinheiros, carvalhos, sobreiros, azinheiras, castanheiros) e a sua substituição por espécies exóticas (sobretudo o eucalipto) mais propícias a satisfazer a avidez da indústria da pasta de papel. No Verão passado, o de 2004, ardeu o melhor da serra algarvia, a parte central.

Eram 40.000 hectares em que abundavam, dispersos, os belíssimos montados de sobro. Um desastre ambiental incomensurável, que não bastou, porém, para que o Governo de Durão Barroso declarasse o “estado de calamidade”, o qual facilitaria imenso à envelhecida população serrana, a obtenção rápida das parcas indemnizações. Honra seja aqui prestada ao autarca social-democrata de Tavira, dr. Macário Correia, o qual oportunamente pôs em destaque o prejuízo daquela não-declaração de calamidade.

E isto foi confirmado pela recente reportagem, apresentada pela TSF na 6.ª feira, 19-11-2004, a qual demonstrou que ainda não foi paga qualquer indemnização àqueles nossos pobres mas abnegados irmãos do Sul, àqueles agricultores e silvicultores algarvios da flagelada serra do Caldeirão. Será, deste modo, legítimo pensar-se que a intenção do Poder é que muitos deles abandonem os seus casebres e boa parte da serra possa agora ser eucaliptizada como em parte já aconteceu na vizinha serra de Monchique. Os últimos linces portugueses desapareceram no incêndio do Caldeirão.

E se tudo isto aconteceu numa província especialmente virada para o Turismo, que impressão levarão estes ingleses, alemães, franceses e espanhóis, do nosso indescritível país, tão impunemente incendiado, na mesma época do ano em que eles por aqui estanciam …

4 – Prevenção? Ou antes, repressão? – Se hoje se sabe que as dezenas de milhares de fogos anuais são obra de delinquência organizada, a soldo de interesses inconfessáveis (ao ponto de se falar de uma “indústria do fogo), como não centrar a acção do Estado português na Repressão a estas organizações incendiaristas? E isto, em vez de se pôr o acento tónico na estafada “prevenção”, opção que os vários anos passados já demonstraram que ajuda, é claro, mas só por si não resulta?

De quem, no fundo, tem o Estado português medo? Que outros poderes, mais altos, se levantam? O Povo português não está, é claro, “feito com” os incendiários e os eucaliptizadores. Mas estará a Democracia portuguesa mancomunada com eles? Se assim for, será por pseudo-razões de ordem financeira (a exportação de pasta-de-papel ajuda a “tapar o buraco” da perda por Portugal, dos vastos rendimentos anteriores a 1974, provenientes de Angola e Moçambique?). Ou será, em vez disso, por mera ignorância ou corrupção dos nossos governantes?

E será isto uma característica intrínseca do actual “Regime” (para utilizar a terminologia do dr. Alberto João Jardim, que não é burro nenhum)? Note-se que é legítimo, é sério, pôr-se a pergunta deste modo, pois como se lembrarão os maiores de 40 anos, no tempo do extinto prof. Salazar e de seu herdeiro Marcelo Caetano, havia apenas meia-dúzia de incêndios por ano no nosso País; e prontamente apagados. As áreas ardidas eram insignificantes e dispersas. As motivações radicavam na negligência de alguns bêbados da aldeia, ou em alguma raríssima vingança pessoal.

5 – “É triste, é uma pena” – Quando acontecem aqueles incêndios devastadores, a televisão costuma entrevistar os lesados e normalmente só transmite a opinião daqueles que, coitadinhos, resignados, só deixam escapar um “é uma pena…”; ou então, “é triste !”. Com certeza que há outros inúmeros desabafos mais indignados, mais revoltados, adornados de (noutra situação) bem pitorescas imprecações e insultos.

Ora, o transmitir o estado de espírito destes segundos, aliás com certeza maioritários, seria tão útil como justo e adequado. Nem que não fosse apenas para intimidar os donos das mãos sujas, que neste preciso momento, às ordens de mentes sujas, já estão a preparar as futuras vagas de fogos-postos do Verão de 2005… E olhem que isto também se integra na ideia de “prevenção”…




Notícias relacionadas


Scroll Up