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Com todo o respeito, Senhor Presidente

Eu sei que o Senhor Presidente da República deve ser tratado com toda a consideração pessoal e institucional; e as outras pessoas também. É, por isso, com cuidadoso respeito que hoje lhe venho confessar uma coisa: Senhor Presidente, não percebo nada do que acaba de fazer.

N/D
6 Dez 2004

Tenho para mim que V. Excia, Senhor Presidente da República, dispunha de argumentos válidos para demitir o Governo e provocar eleições legislativas antecipadas. Bastava-lhe que, depois de ouvir quem deve ouvir, em meia dúzia de minutos televisivos dissesse aos portugueses que Santana Lopes e seus pares violaram uma das condições que lhes havia imposto quando os empossou: ser um Governo de continuidade em relação ao de Durão Barroso, sufragado nas urnas.
Realmente, não lhe seria difícil provar alterações substanciais nalgumas políticas, com as Finanças à cabeça. Depois, e de passagem, até poderia mencionar também episódios mais epidérmicos e secundários, apesar de estes serem entre nós – como quase sempre acontece – os de maior ruído… Acredite, Senhor Presidente, que havia um ror de gente disposta a aceitar a razoabilidade da medida; ainda para mais se dissesse a palavra mágica: estabilidade!…

É possível que, depois de quinze dias de “estabilidade emocional”, V. Excia ainda diga o que, na minha humilde e respeitosa opinião, já devia ter dito. Só que os indícios não apontam nessa direcção. E a minha iliteracia política gagueja:

1. Se este Governo é tão mau, como se depreende do facto de V. Excia não querer que ele termine o mandato, como se justifica que não o tenha já demitido e – ao que se ouve – nem o vá demitir, mantendo-o, por isso, com poderes normais, incluindo poderes legislativos, até às próximas eleições?

2. Escolheu V. Excia o caminho do anúncio da dissolução parlamentar; mas também aqui o especial cuidado de dar a entender aos deputados que, antes de irem embora, devem cumprir a agenda; ou seja: votar o Orçamento do tal Governo que não quer…
Eu, que não sou versado em políticas, não percebo. Mas há ainda outras formigas a mordiscarem o meu espírito… Estas, são questões de delicadeza, diria. Quais?

Oh Senhor Presidente da República, os conselheiros de Estado têm rádio e TV e lêem jornais. Conhecem, por isso, há muitos dias, a decisão da dissolução da AR. Devem, pois, estar a pensar que não vão ser ouvidos coisíssima nenhuma, mesmo que a “convocatória” o diga: vão, isso, sim, ouvir V. Excia. Ou estou enganado? Ou, depois do encontro, V. Excia vai mesmo demitir o Governo?

É claro que os conselheiros são boas pessoas; perdoarão, com a generosidade de Mota Amaral, a indelicadeza da espera e, por certo, não deixarão de comparecer ao apelo formal de V. Excia. Mas, Senhor Presidente, se eu estivesse no lugar deles, olhe que agora só ia a Belém por ser tempo de Natal…

Só mais vinte linhas. Não gostei que o primeiro-ministro fizesse há dias, nesta qualidade, aquele discurso comicieiro da criança na incubadora. Santana perdeu-se na confusão das funções; mas já estamos habituados a governantes que vão a um lado inaugurar um benefício e, de caminho, ficam para um jantar da Concelhia…

Ora, mesmo não tendo gostado das circunstâncias do discurso (que deveria ter sido feito em Barcelos), aproveito da metáfora o aproveitável… E é, assim, que vejo V. Excia como o dono da tal maternidade onde o tal frágil bebé está internado.

Fleumático, com sangue de médico a correr-lhe nas veias, passou, olhou, mas não lhe deu sopapos, como os desalmados familiares; nada disso… V. Excia, após a visita, veio simplesmente ao corredor e, de mão no bolso da bata, chamou a família: «daqui a uns dias vou desligar a máquina. É logo que tenha oportunidade de reunir com os médicos. Entretanto, não se passa nada; cumpram o que estavam a pensar: preparem o quarto do bebé, comprem o enxoval e, se quiserem, também aquela aranha que balança por cima berço. Só depois é que desligo a máquina»…

Com todo o respeito, Senhor Presidente: tinha de ser assim?… Há estabilidade emocional que resista?




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