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Barnabé e Fora do Mundo

Barnabé e Fora do Mundo são dois livros que recolhem textos de blogues.

N/D
5 Dez 2004

O primeiro chegou esta semana às livrarias, o segundo foi editado em Maio.
Para quem possa não saber, um blogue (palavra que deriva do inglês blog, uma simplificação de weblog) é uma espécie de caderno de notas, que pode ser lido na Internet, em que regularmente (várias vezes por dia ou de vez em quando) uma pessoa ou várias escrevem sobre os assuntos mais diversos: cinema, futebol, literatura, música, política ou religião.

Criar um blogue é bastante simples, embora a preguiça torne mais complicada a tarefa de lhe garantir a sobrevivência.

O Barnabé, que se intitula “o blogue que a direita detesta”, é um dos mais activos intervenientes no debate político on-line, sendo bastante mais lido do que vários jornais nacionais.

A obra, que a Oficina do Livro agora apresenta, recolhe alguns dos textos escritos por André Belo, Celso Martins, Daniel Oliveira, Pedro Oliveira e Rui Tavares.

Fora do Mundo, editado por Livros Cotovia, reúne os textos que Pedro Mexia escreveu em A Coluna Infame e Dicionário do Diabo, dois blogues já desaparecidos, que, ao contrário do Barnabé, a direita muito apreciava.

Recorde-se que Pedro Mexia e Daniel Oliveira, talvez o mais activo dos homens do Barnabé, são dois dos participantes num programa que a SIC Notícias actualmente transmite.

Os livros Barnabé e Fora do Mundo são de leitura fácil. O que os distingue não é apenas o posicionamento político e, se se quiser, religioso dos autores – aliás, Fora do Mundo, ao contrário de Barnabé, tem poucos textos políticos. Também o estilo é diferente.

Em Barnabé, a actualidade é, frequentemente, comentada com uma ironia corrosiva, que resulta de uma eficaz combinação entre o título e o texto (os posts). Exemplo: “Salas de chuto são urgentes…”, diz o título, “…em Marco de Canaveses. Põe-se lá Avelino Ferreira Torres e o homem já tem como se divertir sem pôr em risco a saúde pública”, acrescenta o texto. Ou, sob o título “Jornalismo de referência”, escreve-se: “Carlos Cruz vai sair da carrinha. Carlos Cruz está a sair da carrinha. Carlos Cruz saiu da carrinha. Carlos Cruz não presta declarações. Carlos Cruz vai entrar no DIAP. Carlos Cruz, é ele, ele mesmo, vai entrar no DIAP. Vai entrar. Estááááááááá a entraaaaaaaaaaaaaaar. Entrooooooooooouuuuuuuuu no DIAAAAAAAAAAAAAAAAP”.

Ou, ainda, o post, intitulado “Um rude golpe no Q.I. da Casa Branca”, que regista: “Spot, a cadela presidencial dos EUA, morreu anteontem”.

Em Fora do Mundo também abunda a ironia, não menos demolidora, de resto, que, no entanto, resulta de distintos procedimentos retóricos.

Os leitores, esses, é que nem sempre têm o adequado sentido de humor, como nota Pedro Mexia: “Gosto imenso de receber mails, mas muitos dos mails que recebo – sobretudo os de protesto – poderiam ser evitados se os leitores ingerissem 10 mg de ironia no momento imediatamente anterior à leitura dos posts. Agradecido”.

Fora do Mundo tem posts sobre assuntos muito variados. Sobre sociologia – “acontece sempre que faço a parvoíce de comprar livros de Sociologia: espero ideias e apanho com estatísticas” – ou Marisa Cruz – “a modelo Marisa Cruz declarou que se tornou conhecida por causa do seu corpo. O que é, convenhamos, injusto.

Quem, senão Marisa Cruz, divulgou entre nós a Escola de Frankfurt, quem traduziu Roberto Calasso senão Marisa Cruz, quem mais do que Marisa Cruz teorizou sobre o hipertexto e a identidade performativa, quem a não ser Marisa Cruz notou a incompatibilidade entre o pessimismo radical e o budismo em Schopenhauer?

Este país é muito ingrato, Marisa”. Sobre David Beckham – “não me interessa nada se David Beckham é um grande jogador; a minha mãezinha ensinou-me a desconfiar de gente com esposas foleiras” – ou sobre minorias – “ser minoritário tem a sua piada. Eu pertenço a pelo menos a uma minoria: a dos católicos.

É uma das minorias mais engraçadas, porque é a única que passa por ser uma maioria, embora todos os dados demonstrem o contrário.

Mas devo dizer que estou bem acompanhado por alguns bloguistas da minha geração, pertencentes a espantosas e arcaicas minorias: comunistas, belenenses e gente com um casamento feliz”. Barnabé e Fora do Mundonão se recomendam a quem tolera mal algum teor de acidez.

P.S.: para já, o único inconveniente de haver eleições em breve, é, como ontem já sucedeu, termos de tornar a ver Mendes Bota na televisão.




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