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«Angola precisa de paz com justiça»

Esta convicção de uma voz autorizada e experiente em questões humanas como é a de João Paulo II, traduz a preocupação e o amor que tem pelos seres humanos; neste caso concreto, pelos angolanos.

N/D
5 Dez 2004

Li numa notícia do “Diário do Minho” de 23 de Outubro de 2004, que o Papa pediu aos bispos angolanos, que estavam de visita “ad limina apostolorum”, que trabalhassem pela justiça e reconciliação e que ao mesmo tempo fomentassem o diálogo e os valores do evangelho.
E não resisto em fazer um pequeno comentário:

Mais do que desminar terras – o que é extremamente importante – Angola ou os angolanos precisam de desminar as consciências. Quase todos somos unânimes em afirmar que a guerra acabou e que, por isso, estamos em paz. Pode ser verdade, se se tomar apenas a perspectiva das armas, que graças a Deus há dois anos se calaram… Mas a paz é mais abrangente.

Por isso, falar de “paz com justiça” é esclarecedor e penso que João Paulo II quer-nos ajudar a encontrar o caminho. Onde não há justiça, podemos dizer, categoricamente, que não pode haver paz; pode é haver espíritos adormecidos pelos efeitos da globalização da violência (opressão).

Falar de quem, com quem e para quê? São, muitas vezes, estes os nossos desalentos, ao constatar como vai a nossa casa Angola. A justiça não cai do céu e não é apenas uma questão para alguns privile-giados: é de todos nós, tem de nascer do nosso coração e da consciência de responsabilidade.

A justiça é uma necessidade vital, básica. É importante tomarmos consciência de que o ser humano é o que de mais importante há sobre a face da terra.

Podemos dizer que Angola já viveu momentos difíceis; e até podemos dizer, tranquilamente, que o pior já passou. Mas isso é apenas um passo nas necessidades e preocupações que Angola tem. Há, de facto, um trabalho muito sério pela frente. A guerra terminou, mas temos batalhas e prioridades e é para isso que devemos canalizar as energias possíveis, porque a felicidade é a casa onde todo o ser humano (angolano) quer morar.
Penso que é claramente reconhecida e assumida a diversidade étnica que temos e somos. Mas o norte, o sul, o centro, o leste e o mar não são muitas angolas.

Há uma só casa e nós só temos é que ser irmãos. Temos de aproveitar essa diversidade cultural como uma grande riqueza em todos os sentidos e, assim sendo, temos de aprender a viver juntos.

A realidade angolana, por si mesma, impõe-se à consciência de cada um. Isso deve estar bem claro nas preocupações da Igreja angolana, que tem de transmitir de forma sábia e eficaz os valores evangélicos neste momento particular – porque a Igreja não vive fora do tempo, muito menos fora do mundo e é no real, no ser humano concreto, que tem de mostrar-se como sinal de salvação.

Se analisarmos a forma como a guerra aconteceu, isso obriga-nos a ter um projecto e uma visão de futuro muito mais exigentes. É verdade que não vai ser fácil sentirmo-nos todos irmãos. Temos que desatar os nós que temos nas nossas gargantas e acreditar no outro.

A nossa maior conquista não será, seguramente, o conseguirmos descobrir mais poços de petróleo ou mais minas de diamantes ou outros recursos minerais; terá de ser, isso sim, a reconciliação dos espíritos a maior das prioridades.

Numa fase como esta, todos precisamos da cultura do perdão, sendo importante saber que perdoar é próprio dos fortes, pois os fracos vingam-se com facilidade. Perdoar é deixar viver, é acreditar na possibilidade de o outro ser mais e melhor, é dar a liberdade e devolver a dignidade. E isso ensina-se, educa-se e aprende-se.

Cada um de nós tem de ter um olhar interior e interrogar-se muitas vezes: o que tenho feito, o que posso fazer e o que devo fazer?

Neste momento são desnecessários os profetas da desgraça que já tiveram o seu tempo.

São precisos, isso sim, os que suscitam esperança, vontade de viver e que acreditam no futuro
Pregar o amor não se faz apenas durante os 50 ou mais ou menos minutos de missa; a maior pregação é a vida. Quero dizer que a Igreja angolana, na pessoa dos bispos, precisa de unidade, porque reinos divididos não prosperam.

As iniciativas pessoais são sempre bem vindas e válidas, mas actos isolados dentro de uma comunidade de irmãos anunciam quase sempre divisão, e toda a divisão é sempre um escândalo.
Olhando para a realidade que é Angola, notamos com muita facilidade, dor e angústia as acções daqueles a quem nunca ninguém falou do milagre do amor.

Não se respeita ninguém, não se ama, não se convive, não se perdoa. Não é e não devia ser assim. Podemos tornar Angola numa “Oikoumene”, numa terra habitável, casa comum onde cabe toda a família.

A educação será, sem dúvida, uma arma de grande calibre, se investirmos nela. Educar é libertar, é desenvolver o que de mais humano existe no humano.

A tarefa mais importante da educação será, sem dúvida, a de transformar o ser humano em líder de si próprio, portanto, livre e responsável, capaz de participar em projectos que construam uma nação do futuro.

O diálogo será uma realidade a cultivar. O diálogo de que fala o Papa é um diálogo próprio de irmãos, não é de negócios – que também é importante, com todo respeito – mas deve ser um diálogo que signifique comunhão de vida.

Para um africano, o diálogo devia ser das coisas mais fáceis, porque a própria organização de vida é propícia. Assim o confirmam os nossos “ondjangos”. Onde não há diálogo há sempre preconceitos e esses causam sempre prejuízos.

Mas o diálogo suscita confiança, suscita tolerância e habilita para a pedagogia da compreensão. Isso possibilitará uma convivência humana mais fraterna, saudável e, assim, podemos pensar juntos como irmãos o futuro da mãe Angola.




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