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3. Uma história deliciosa do PREC2

Corria o ano de 1975. Mais precisamente estava-se no dia 11 de Março. Na Presidência da República tínhamos o General Costa Gomes; quanto ao III Governo Provisório, era chefiado pelo então Brigadeiro Vasco Gonçalves.

N/D
4 Dez 2004

Nesse dia, pelas 11 horas, nas proximidades de Lisboa, arrancou um movimento militar que, pelo menos oficiosamente, veio a ser conhecido por «golpe contra-revolucionário de 11 de Março de 1975».Foi um dia extremamente complicado, com barricadas nas ruas e em muitas estradas do País, tendo-se gerado inúmeros conflitos entre populares e, com o decorrer do dia, entre civis e militares.
Por volta do meio-dia, face à complexidade da situação, foi ordenado o encerramento das fronteiras.

Numa vila do Alto Minho, que faz fronteira com a Espanha (Galiza) através do rio com o mesmo nome, a travessia era assegurada, na época, por um barco a motor ou, na sua falta, a remos.
Nesse tempo, a rede de frio (veículos equipados com arca frigorífica) era praticamente inexistente na província.

Em consequência, todas as manhãs, nessa vila, as peixeiras locais atravessavam a fronteira fluvial (o rio Minho) naquele pequeno barco, para se irem abastecer de peixe fresco à localidade mais próxima da vizinha Galiza.

Na mesma embarcação era também frequente fazerem a travessia diversas trapicheiras3, que se iam abastecer de bens de consumo supérfluo, com que faziam um insignificante contrabando, na sua lufa diária de sobrevivência.

Ora, com o encerramento das fronteiras, peixeiras e trapicheiras ficaram do lado de lá do rio, sem quaisquer possibilidades de regressarem de imediato a Portugal.

O dia ia correndo, e aquela vila do Alto Minho viu-se privada de peixe fresco para os seus repastos.
Ora, segundo dizem, a meio da tarde as forças vivas locais, desesperadas, acorreram ao gabinete do então jovem Delegado do Procurador da República, pedindo-lhe auxílio na resolução de tão insólita quão candente situação.

A terra era pequena, todas as pessoas se conheciam, o convívio entre magistrados e locais era sadio e pacífico, sendo recíproco o respeito, sem que daí resultassem quaisquer interferências nas funções ou actividades de cada um.

O magistrado, solícito, recordou-se que o Delegado do MFA4, que então liderava o poder local na área do distrito de Viana do Castelo, e que, inclusive, tinha competência para executar as ordens de encerramento e (ou) abertura das fronteiras, tinha sido seu contemporâneo nos idos tempos de Coimbra.

Decidiu-se, então, pelo contacto telefónico, o que fez de imediato.

A resposta foi rápida e certeira, já que a diligência teve inegável sucesso.

Na verdade, ao fim da tarde surgiu a competente autorização para que a fronteira fluvial abrisse do lado de Portugal, pelo tempo necessário a que o barco fizesse a viagem de regresso, com a mesma comitiva com que de manhã atravessara o rio com destino à Galiza.

À chegada houve festa na terra, com foguetes e tudo, com o povo, indiferente à pretensa revolta que assolava o País, a deslocar-se às proximidades do rio para aclamar as «sã e salvas» peixeiras e trapicheiras.

À noite já houve peixe nalguns lares locais, embora menos fresco que o costume, dado o longo tempo de permanência fora dos frigoríficos, à espera da ansiada importação.

Depois da janta, nos cafés locais, à hora da bica e do inevitável bagaço, a indiferença para com a política ou futebóis foi notória, já que a conversa incidiu sobre outro tema, bem diferente, e mais localmente interessante.

No dia seguinte, a vida retomou o seu curso normal, sendo que o assunto, autêntico «pequeno nada», como tantos outros com que nos confrontamos no dia a dia, rapidamente caiu no esquecimento.

Notas

1 Entretive-me, em anteriores crónicas, a escrevinhar sobre temas tão diversificados do nosso quotidiano como o ritmo de vida que se adivinha do modo como se sobem ou descem escadas rolantes, ou sobre esse fenómeno social recente das ruas das nossas cidades, que são os arrumadores de carros.

Nesta terceira crónica abordo um acontecimento que terá ocorrido há cerca de trinta anos numa vila do Alto Minho.

Sem explicação plausível para o facto, assinei as primeiras crónicas sob um pseudónimo composto por penúltimos apelidos de meus ascendentes directos. Nada o justifica, pelo que, doravante, sendo meu nome de registo civil José António Barreto Nunes, será com ele que passarei a assinar eventuais novas crónicas a publicar – digo eventuais, porque só serão publicadas se o Ex.º Director do Diário do Minho as considerar pertinentes.

2 Leia-se: Processo Revolucionário em Curso, que decorreu, mais ou menos, entre 25 de Abril de 1974, ou, segundo alguns, e com mais precisão, entre 28 de Setembro do mesmo ano, e 25 de Novembro de 1975.

3 O trapiche, localmente, correspondia ao contrabando de bagatelas, como, por exemplo, os famosos caramelos espanhóis, os chocolates, as pastas de dentes, bem como outros «pequenos nadas». O trapiche era, por regra, praticado por mulheres. Trapicheira era a mulher que se dedicava a esse anódino e insignificante comércio.

4 Leia-se: Movimento das Forças Armadas.




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