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Exageros

O meio termo raramente tem aplicação, na nossa escala de avaliação

N/D
3 Dez 2004

Como todos os povos do mundo, a população portuguesa também apresenta características próprias.
Esta caracterização merecia estudo pormenorizado, mas entendo não ser eu a pessoa indicada para o fazer.

Por várias razões.

Primeiro, porque gosto de escrever em termos simples e escorreitos, de maneira que toda a gente entenda; em segundo lugar, por reconhecer que é assunto para peritos na matéria.

Todavia, parece-me que não virá mal ao mundo se, em conversa informal, nos debruçarmos sobre uma característica do povo português que, ultimamente, chamou a atenção de todos nós.

Quero-me referir à circunstancia de sermos um povo do “oito ou do oitenta”, do tudo ou do nada.

Realmente, seja para o bem, seja para o mal, seja em casos onde haja alegria, seja em situações de apagada e vil tristeza, temos a mania de cair no exagero, isto é, ou nos colocamos no pelotão da frente ou ocupamos os derradeiros lugares das tabelas classificativas.

Não fazemos a coisa por menos.

Há uns tempos, Durão Barroso, como é sabido, foi eleito Presidente da Comissão Europeia.

Pois, foi o suficiente para o “tuga” lusitano dar azo ao exagero da sua prodigiosa imaginação.

Aproveitando a recente eleição americana e a deficiente saúde do Papa, surgiram logo comentários que indicavam dois possíveis lugares cimeiros, cheios de pompa e honrarias, a ocupar por figuras lusitanas.

Dizia-se, então, à boca cheia que, se o candidato Kerry ganhasse, o nosso ex-Primeiro-Ministro António Guterres iria ocupar o lugar de secretário-geral da ONU e, quando João Paulo II falecesse, o nosso cardeal seria a pessoa mais indicada para lhe suceder.

Nestes termos, Portugal ficaria com Durão Barroso a comandar a Europa; Guterres a ordenar o mundo político e o Cardeal-Patriarca de Lisboa a presidir ao universo católico.

E… se mais lugares de destaque houvesse, certamente, mais candidatos surgiriam!…
Isto é que é sonhar, não achas leitor?…

Claro, que não vou – nem por sombras!… – pôr em causa a competência destas ilustres individualidades lusitanas; apenas quero chamar a atenção dos leitores para o facto das qualidades pessoais, por vezes, não bastarem para chegar a tão importantes e honrosos lugares.

Estas escolhas envolvem poderes e prestígio do país da naturalidade, acusam interesses e influências de variada ordem e até respondem a quesitos de ordem transcendental.

Por todos estes e outros factores, o eleito surge donde menos se espera.

Em Roma, até se diz: – «quando um cardeal entra no conclave Papa, sai de lá simplesmente cardeal».

– Mas, se mudarmos de disco, verificamos que somos também indefectíveis adeptos do exagero, nas coisas más!…

Quando nos dá para o triste, arranjamos logo lugar para a hipérbole.

O mal é transformado em catástrofe, a morte multiplica o trabalho da foice, a doença gera epidemia, a fome alastra penúria geral, etc. etc.

Então, deixemos o pelotão da frente e vamos ocupar os derradeiros lugares da escala.
Enfim, o meio termo raramente tem aplicação, na nossa escala de avaliação.




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