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Advento e laicismo cultural europeu

O Advento convida os católicos à meditação e à penitência como meio de preparação da festa do Natal. É, pois este, um tempo litúrgico especialmente adequado à reflexão sobre a mensagem de paz, esperança e de amor corporizada no nascimento de Cristo. E, também, à vigilância activa que ajude a evitar os perigos e a resolver os conflitos que afligem o mundo hodierno.

N/D
2 Dez 2004

Ora, um dos males que vem corroendo a civilização europeia é de raiz cultural e filosófica e traduz-se na negação da dimensão espiritual do homem e dos princípios morais e éticos que lhe estão associados.

Na linha dos filósofos do século XVIII e dos pensadores políticos do liberalismo dos séculos XIX e XX, foi-se criando a convicção (errada) de que, à medida que aumentassem a liberdade e os conhecimentos científicos, as crenças religiosas tenderiam a enfraquecer ou até a desaparecer, enquanto a democracia se deixaria imbuir por uma ortodoxia moral, de tipo relativista, despida de qualquer concepção substantiva que não a da simples tolerância.

Porém, como os factos mais recentes dos finais do século passado e do princípio deste terceiro milénio demonstram, o fenómeno religioso, com evidentes conotações políticas, eclodiu em várias e extensas partes do Mundo, com inusitado vigor, do Islão à América Latina, passando pela Ásia, África e Índia.

E isto apesar dos enormes progressos técnicos e científicos entretanto verificados e dos esforços do Ocidente no desenvolvimento de uma cultura de tolerância religiosa e cívica e no fomento de regimes políticos livres e democráticos.

Por isso, impõe-se a constatação óbvia de que, em todos os tempos e lugares, a dimensão espiritual do homem e, consequentemente, das sociedades por ele formadas justifica o papel e a importância essenciais da religião na vida e governo dos povos.

Assim sendo, nesta aldeia globalizada dos nossos dias, tenho como indubitável que só o diálogo ecuménico, o conhecimento recíproco e a tolerância inter-religiosa poderão representar o caminho seguro para que a humanidade possa aspirar aos desígnios divinos de paz e compreensão mundiais.

Com este espírito, parece evidente que os valores religiosos e morais não só não são incompatíveis com a liberdade e a democracia, como devem ser incentivados e fomentados pelo poder político, sem prejuízo da salvaguarda do princípio fundamental da laicidade do Estado: “A Deus o que é de Deus, a César o que é de César”.

Todavia, não tem sido este o entendimento da cultura europeia pós-moderna. Ao fanatismo religioso, passou a responder-se com a inimizade pelas religiões, mesmo por aquelas que, como o Cristianismo, pregam os ideais do humanismo, da tolerância e da liberdade e se redimiram dos excessos do passado longínquo.

Contra a tradição judaico-cristã da sua matriz cultural, o laxismo, o hedonismo e o relativismo ético e moral vêm fazendo caminho na vida dos povos da Europa, numa tendência demagógica de fractura com os mais elementares padrões e referências da civilização ocidental.

Tome-se como exemplo o direito básico às crenças religiosas, garantido há mais de 50 anos, tanto pela Declaração Universal como pela Convenção Europeia dos Direitos do Homem, que ainda recentemente foi posto em causa pelo Parlamento Europeu, ao recusar para membro da Comissão o italiano Buttiglioni, por causa das suas convicções morais e religiosas de católico alinhado com o Vaticano!

Em nome da laicidade, alguns países europeus recusaram a inclusão, no preâmbulo do Tratado Constitucional Europeu, da referência ao Cristianismo como matriz histórica da cultura e identidade europeias, renegando, assim, uma das mais impressivas fontes dos seus valores humanistas! E em nome da liberdade, vai-se legalizando o aborto e a eutanásia, enquanto se tende a consagrar em letra de lei a identificação da família e do casamento à união de homosexuais!

É sobre esta perigosa tendência do autoritarismo cultural das elites políticas da esquerda europeia que é preciso reflectir e agir, seguindo o exemplo da Conferência Mundial das Mulheres Parlamentares para a Protecção de Crianças e Jovens que, há dias, em Roma, concluiu pela necessidade de “definir e defender uma visão da família como unidade fundamental para o desenvolvimento equilibrado dos filhos e de exigir aos Estados o desenvolvimento de políticas públicas de protecção e defesa da família.

Que neste Natal de 2004 o Menino Jesus renasça nos corações dos cristãos portugueses e dos europeus e lhes dê ânimo e força para publicamente proclamarem a sua fé e agirem em conformidade com a reflexão que sobre ela são convidados a fazer, são os votos sinceros que proponho à consideração dos meus estimados leitores.




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