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Lá se foi o apito!

Não, não! Não é o tal, o “Dourado”. Esse já tem dono. E até soou como trombeta bélica na consciência de muitos “valentões”.

N/D
1 Dez 2004

Também já se falou no “apito azul”. E a distribuição de cores vai continuar, porque a bola de futebol se transformou na “caixa de Pandora”. Se algum dia rebenta, ficaremos a saber todas as verdades e todas as mentiras do desporto mais apaixonante.
O apito de futebol é um sinal de contradições. Inocente, mas cheio de ansiedade no início do jogo, será sempre, no fim do desafio, sinal de fracasso, de glória ou de desilusão.

Por vezes, indica tragédia. Mas é imperial, quando, repentinamente, coloca de pé um Estádio inteiro, aos gritos de vitória. Por vezes, em momentos especiais, a música deste pequenino instrumento e capaz de marcar o ritmo de uma Nação inteira em danças e contradanças de enormes emoções.

Eu tive, até agora, dois apitos. Na meninice, há que anos!, ofereceram-me um todo de madeira. Foi o meu primeiro instrumento musical. Um encanto de ilusões! Inocente, pastoril, rústico, conduzia rebanhos, respondia a companheiros, levantava bandos de pássaros.

Perdia-se nas quebradas em ecos sucessivos. Mais tarde, comprei um apito “oficial”.

Todo metálico, com ar citadino, tem um timbre demasiado penetrante. Não me atrevo a tocá-lo mais. Aquele som acorda em mim memórias de populações ululantes, vozes e gritos desconcertados, muitos sofrimentos e evasões.

Parece-me um vulcão em miniatura. Seria assim como pôr o ouvido num búzio e viver todos os mistérios dos Oceanos.

Mas, afinal, e o “apito que lá se foi”? Esse era totalmente diferente. Era, porque já não toca. Trazia alegrias e levava saudades. Muitas saudades, ate às lágrimas. Era um apito falador, no silvo agudo e penetrante do seu timbre. Chamava, avisava, despedia, acordava. Até dava informações seguras sobre o tempo.

Quando vinha nas ondas do vento sul, e era Inverno, era certo e seguro que não tardava o mau tempo e a chuva. Lá vai o COMBOIO! Lá vai ele!… Poucaterrando e resfolegando, o anúncio sonoro da sua passagem ecoava por montes e vales.

Já em noite negra ou em boa madrugada, quebrava o silêncio nocturno e gritava a sua mensagem. Acabo de chegar! Vou partir! Como os sinos a dar horas, era um companheiro de muitas insónias.

Os tempos mudaram e o respeito e a boa educação também chegaram aos comboios. O desconchavado poucaterra… poucaterra da marcha e a respiração ofegante da maquina, com pulsações de fumaça negra, fizeram história.

A Praga chegou finalmente, em boa hora, a pós-modernidade das linhas férreas. O novíssimo Palácio da Estação, com toda a elegância e dignidade no seu trajo escuro de gala nocturna, anuncia novos tempos.

A coroa de ferro, lá no alto, quase ao jeito de uma esfera armilar, simboliza a união e o sonho de novos caminhos ferroviários na conquista de novos espaços.

Agora, os comboios chegam e partem apenas no rigor e no segredo dos horários. Já não há indicações sonoras. Deslizam suavemente pelos carris contínuos, sem vestígios de poluição nem de fumos, nem de cheiros, nem de ruídos. Cumprem a ecologia perfeita.

Eu, por mim, tenho saudades do apito do comboio. Fazia parte singular do ambiente e despertava memórias de viagens inesquecíveis. Mas compreendo e louvo todos os limites do seu uso, sobretudo nas grandes cidades.




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