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Porquê tanto consumo de antidepressivos?

As funções biológicas do homem vão sendo perturbadas pelo stress da circulação, pelo stress do ruído, pelo stress óptico, pelo stress da vida em comum, pelo stress da solidão, pelo stress da competição, pelo stress profissional…

N/D
30 Nov 2004

No passado dia 8 de Outubro, a RTP noticiava que, em 2003, os portugueses consumiram 17 milhões de embalagens de antidepressivos. Porquê tanto consumo de antidepressivos? Que causas levaram (e continuarão a levar) a isso? A resposta corrente é: por causa do stress da vida moderna.
Tornou-se lugar comum atribuir ao stress a responsabilidade de todo o nosso mal estar. De tanto demonizar o stress, tornamo-lo num inimigo temível do qual não sabemos como nos havemos de livrar. É, pois, necessário, antes de mais, saber o que é o stress e identificar os seus mecanismos de acção para podermos aprender a proteger-nos dele, já que não nos podemos livrar dele.

Há muita bibliografia sobre o stress, mas a abordagem mais profunda e interessante que conheço deve-se ao Prof. Frederic Vester, bioquímico e especialista em problemas ambientais, da Universidade de Munique. Numa outra perspectiva e sob uma abordagem psiquiátrica cognitivista, há também um livro que deve ser lido, do Prof. Adriano Vaz Serra, “O Stress na vida de todos os dias”.

Como é sabido, a palavra stress significa, no original inglês e referente ao domínio do estudo da resistência dos materiais, esforço, tensão, contracção. Em 1950, Hans Selye, médico canadiano, de origem húngara, introduziu este termo na biologia com o significado de constrangimentos, tensões, emoções às quais o ruído, as frustrações, a dor, a angústia existencial e outros que submetem quotidianamente o ser humano, tudo aquilo que fisicamente ou psiquicamente nos pressiona.

Do ponto de vista negativo, o stress é visto como algo que ameaça a saúde, o bem estar, algo que ultrapassa as nossas forças, um problema impossível de evitar que faz parte da nossa civilização. Há quem lhe chame a doença da civilização, pelo que não nos resta outra alternativa senão aprender a conviver com ele e a proteger-nos dele, como acima dissemos.

Seja ou não doença da civilização, a verdade é que não podemos cair no erro de nos convencermos que o nosso meio ambiente civilizado e servido por uma tecnologia desenvolvida, geradora de serviços e de conforto, corresponde à nossa natureza profunda só pelo facto de que fomos nós que a criamos e desejamos.

Então como começou o drama do stress?

A dada altura da sua existência na Terra, os homens, que se consideravam como parte do meio ambiente e como tal o respeitavam, tomaram consciência de que poderiam mudar essa situação de acordo com a sua vontade. O desenvolvimento da consciência de si mesmo (que alguns entendem simbolicamente representado na Bíblia pela expulsão do Paraíso) e o desenvolvimento de novas artes contribuíram para essa intervenção no meio ambiente.

Nos tempos modernos, estas técnicas, a higiene e a medicina desenvolveram-se espantosamente e a esperança de vida aumentou rapidamente; o desenvolvimento técnico cresceu até ao exagero; a população mundial aumentou, a ponto de já ser uma preocupação o espaço para sobreviver. Não é que o problema do espaço para sobreviver seja muito real, porque toda a população podia caber em cerca de 300 Kms quadrados.

Os problemas são de outra ordem. Os produtos alimentares tornaram-se mais raros; as fontes de energia ameaçam esgotar-se; a poluição ambiental criou situações perigosas; as matérias primas estão repartidas de modo muito desigual no mundo; o desenvolvimento tecnológico ampliou-se para dar satisfação às necessidades, mas os apetites foram-se requintando e a produção e consumo atingiram níveis vertiginosos, dando origem a uma perversão total do nosso modo de vida natural, causando constantes dificuldades de adaptação.

As aberrações sociais começaram então a produzir fenómenos de stress. Pode mesmo chegar um momento em que a carga imposta ao nosso planeta Terra e à sua biosfera atinjam o ponto de rotura. Significa isto que, durante milhares de anos, o homem viveu como membro da ordem da biosfera, mas agora a situação alterou-se e o progresso da técnica pode virar-se contra o homem, ao destruir a natureza.

Assim, as funções biológicas do homem vão sendo perturbadas pelo stress da circulação, pelo stress do ruído, pelo stress óptico, pelo stress da vida em comum, pelo stress da solidão, pelo stress da competição, pelo stress profissional…




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