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Uma achega sobre “degradação da escola”

Porque fui durante 38 anos professora do 1.º ciclo, leio sempre com redobrada atenção tudo o que se refere à educação.

N/D
26 Nov 2004

Foi assim que li na última página do “Diário do Minho”, de 18 de Novembro, um testemunho que mereceu o título “A degradação da escola”.

Compreendi a indignação do seu autor. Quem não sente mágoa de testemunhar atitudes de desrespeito contra o trabalho realizado pelos outros?

O incidente registado mereceu-me uma análise mais profunda. É do conhecimento de todos que a Escola é, cada vez menos, o que todos gostaríamos que fosse – um lugar em que se formam cidadãos responsáveis.

O que não podemos é culpar exclusivamente os pais porque não educam. É mais justo que nos culpemos todos: os intervenientes activos em todo o processo ensino/aprendizagem porque não intervieram cabalmente, mas também a sociedade em geral, porque viu, julgou e cobardemente se calou.

Ponho-me no lugar dos alunos: que sentirá pela escola, como a vê, um aluno que sai de casa apenas motivado para uma nova aventura (uma partida pregada a um colega, professor, auxiliar) que torne menos monótona a obrigação de ir à escola?

E como, para ele, a escola não passa dum lugar antipático, procura recrutar os amigos que pensem como ele. Assim se formam os grupos capazes de intimidar. Procuram, na forma como actuam, ser “os melhores” ,uma vez que não o conseguem ser noutras áreas – no estudo.

Como inverter esta situação?

A criança, o jovem, tem de sentir prazer em aprender, em viver numa sociedade em que se sinta totalmente inserido.

Para que tal aconteça cabe ao professor do 1.º ciclo a maior responsabilidade. Tem de fazer sentir discreta e constantemente que as pessoas valem pelo que são e nunca pelo que têm.

Teoricamente o professor conhece tudo isto, sabe que a turma heterogénea é à partida mais rica, desde que se crie o sentimento de que na escola todos têm a possibilidade de ensinar e aprender. Preocupado com o sucesso escolar, pode esquecer de eliminar as pequenas diferenças que a uma criança de 6 anos, ainda tão egocêntrica, podem parecer angústias medonhas.

Dou um exemplo: uma dúzia de lápis de cor dentro duma embalagem de cartão ou plástico transparente cumpre o mesmo objectivo daquela que é apresentada num sofisticado estojo colorido, garrido e luxuoso.

Se o professor pretende que a sua turma se torne rapidamente numa pequena comunidade solidária e participativa, deve romper com a primeira barreira. Porque não sugerir aos pais a aquisição de material comum? Garanto, por experiência própria, que fica muito menos dispendioso.

Há uns 20 anos o professor sabia ler e interpretar os programas, elaborar os planos de trabalho, preparar as aulas, os exercícios de aplicação e avaliação de conhecimentos, adequando-os ao ritmo de aprendizagem dos alunos. Hoje, a maioria dos professores não se dá a esse trabalho. Basta ir à livraria, pois lá encontra planos, fichas e mais fichas.

Dá a impressão que o professor de tal modo se deixou subjugar pelo consumismo que nem dá conta que está a meter os seus alunos em verdadeiras camisas de forças. O ensino que devia ser individualizado de modo a respeitar o ritmo de aprendizagem de cada aluno, passou a ser dirigido para o imaginário do autor das fichas e dos manuais.

Finalmente, os trabalhos de casa monótonos e repetitivos, ou então as fichas que terão de ser feitas com a ajuda dos pais ou irmãos mais velhos, ou dos responsáveis pelos ATL’s que passam a ser uma segunda escola e não aquilo que deviam ser.
Como vai um jovem sentir-se bem ao transitar de ciclo, se leva do primeiro tão má impressão?

Importa também que o professor desista de ser “doutor” no 1.º ciclo e reconquiste o perfil que tão bem lhe ficava há 15 ou 20 anos. É que ao fazê-lo deixou “órfãos” cedo demais os seus pequenos alunos. Quantas vezes me chamaram “mãe” os meus alunos! E quando coravam envergonhados pelo lapso, mereciam sempre um gesto de carinho. Não imaginavam a enorme alegria que me faziam sentir.

Nem tudo vai mal, graças a Deus. Ao iniciar o ano lectivo, tão conturbado que foi, uma escola próxima de Lisboa elaborou um regulamento interno: os alunos aceitaram não se apresentar na escola de mini-saia ou calções, os professores deixaram de se chamar “setor” ou “setora” mas Sr. professor, S.ra professora ou Sr(a). Doutor(a), seguido do nome próprio, se quisessem.

Mais recentemente uma escola do Norte estabeleceu que ninguém fumaria dentro dos portões da Escola (regra válida para alunos, professores e pessoal não docente).
Porque não divulgar estes e mais exemplos, a ser seguidos?

Urge que a comunicação social lance um trabalho de pesquisa e divulgue mais os bons exemplos e não se fique apenas pelas críticas negativas que divulgam os erros, incitam por vezes a idênticas atitudes, mas não procuram as correcções necessárias.




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