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O trágico siamesco com Espanha…

Numa Europa sem contemplações, teremos muito que aprender, a começar pelas nossas famílias e escolas, criando outras ambições. Quem responde ao repto?!…

N/D
26 Nov 2004

Ao ler as opiniões de muitos correspondentes do nosso jornal, alguns a tentar neutralizar o pessimismo vigente (eu que o reconheci muito cedo e não sou dos mais optimistas), lembrei-me de Unamuno – que visitou Portugal dez vezes -, aquando do convite para celebrar o 1 de Dezembro, que, depois de sublinhar o nosso sestro suicidário de fadistas e cassandras – «pueblo de suicidas» – observava que, dali a dias, celebrariam os portugueses a festa da Restauração da nacionalidade, por terem sacudido o jugo filipino e que, no dia seguinte, falariam novamente da «bancarrota e da intervenção estrangeira. Pobre Portugal!…»

Diferente, contudo, de outros detractores como Larra, ou os silêncios de um Ortega Y Gasset, logo no mesmo texto, diz a seguir:

«Que terá este Portugal – penso – para assim me atrair? Que terá esta terra, por fora risonha e branda, por dentro atormentada e trágica? Não sei, mas quanto mais vou vê-lo, mais me apetece voltar. Já cheguei a crer que talvez seja que estes extremos ocidentais deram as mãos espirituais com os extremos orientais, os da Índia, e chegaram ao triste miolo da sabedoria, à compreensão da vaidade final de todo o esforço.

Parece que ali poisa a lúgubre sabedoria do Eclesiastes. Nesse povo triste, tristíssimo…, a gente diverte-se sem dúvida, mas diverte-se como se dissesse: comamos e bebamos, que amanhã morreremos» (In Por Tierras, p. 77, cit. de J. Medina, in “Cadernos Clio”).

Com um certo remoque, eivado de muita ironia, numa carta a um seu amigo Laranjeira, escrita de Salamanca a 9 de Julho de 1911, desenvolve o mesmo pensamento, mas com um recorte mais quixotesco:

«Às vezes creio que vocês, sem o saberem, por um acto de sabedoria colectiva subconsciente, chegaram ao mais triste fundo da verdade humana, a vaidade de todo o esforço, ao final fracasso de toda a vida individual e nacional, e então Antero me aparece como um terrível profeta, porta-voz de todo um povo. Portugal, que é o extremo ocidente, não se dará as mãos ao extremo oriente e não terá chegado à terrível verdade que Buda descobriu? Debaixo de toda a podridão política, protegida talvez por ela, palpita uma fatídica sabedoria, a consciência dolorosa de que é a ilusão o motor da civilização humana.

Não sei se o que aqui acontece é loucura ou não é, talvez melhor, a sensatez final de Dom Quixote, o juízo precursor de toda a morte? Não é acaso o mais ajuizado morrer? (No es por acaso lo mas cuerdo morirse?) E reinar, reinar depois de morrer, como Inês de Castro».

Aqui se condensa muito do que ele pensava de nós como povo: elegíaco e triste, que se concretiza e resume no drama de Pedro e Inês de Castro, ao mesmo tempo fúnebre, amoroso e trágico, como melhor símbolo de povo suicida, eivado sempre de sentimentos de viúvas, com figuras emblemáticas que se suicidaram como Camilo ou Antero, ou até no desditado e execrado D. Carlos, abatido como um javali numa esquina do Terreiro do Paço, que se suicidara por interposta pessoa.

Afinal, um povo budista… inclinado a abismar-se no nirvana da passividade e da abulia, todo interior, melífluo, devoto das almas do Purgatório – como diz João Medina – e mais inclinado a admirar o Cristo menino do que o Jesus sanguinolento pregado na cruz.

Triste nas suas entranhas e nos «refegos mais secretos da alma, cujos dramas tinham, como no caso do separatismo ibérico, o condão doloroso de reivindicar uma independência que, no fundo, levava a tragédias e desatinos como a da ditadura demente de um João Franco ou, logo de seguida, a essa tresloucada República, de que ele depressa descreu. Ou a um 25 de Abril lírico…, mas de entranhas envenenadas, como congestão de espíritos incompetentes e ideologias mal digeridas, como ainda hoje?

Esta longa reflexão explica muito do que somos e temos sofrido. Talvez a maior falta seja a de não querermos e não sermos capazes de nos compreendermos e de nos olharmos a nós mesmos. Precisamos sempre do acicate dos outros para vermos mais claro, ou para colocar os trilhos na boa direcção, se bem que, fortes em imitar os outros nos seus defeitos, nem sempre somos capazes de guardar e preservar as qualidades ou virtudes que temos, como aprender deles.

Somos, no entanto, um povo complexo… Mais feliz no que não temos ou mostramos, mas o ambicionamos, embora com pouca coragem para o conseguir. Ainda infelizes no pouco que temos, esperando de outros o que deveríamos fazer para no-lo guardar.

Será que, na nossa fraqueza, está a maior grandeza, ou fazemos tenção de sermos fracos para sermos depois engrandecidos, com pena de nós? Talvez o nosso espírito de humildade, humilhação ou de masoquismo tenha sido mal compreendido. Mas seremos humildes para nos vermos através de outros, não como imagem real, mas reflectida, em espelhos paralelos, ainda que partidos? Com luz que não é nossa, nos vem da que tivemos, mas não desenvolvemos?

Numa Europa sem contemplações, teremos muito que aprender, a começar pelas nossas famílias e escolas, criando outras ambições. Quem responde ao repto?!…




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