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Trabalhos de casa

Encarregar as crianças de fazerem trabalhos em casa será uma «agressão» aos direitos infantis? Sim ou não?

N/D
25 Nov 2004

Sou convictamente contra a exploração do trabalho infantil mas estou a favor do trabalho infantil.
Explico-me.

Sou contra o trabalho infantil desproporcionado à capacidade da criança.

Sou contra o trabalho infantil que é uma forma criminosa de recurso à mão de obra barata.

Sou contra o trabalho infantil que retira as crianças da escola antes de concluída a escolaridade obrigatória.

Sou contra o trabalho infantil que faz adultos à força.

Sou contra o trabalho infantil que não deixa a criança ser criança.

Sou contra o trabalho infantil que não deixa à criança tempo para brincar nem para conviver com outras crianças.

Mas sou a favor do trabalho infantil que de forma humana leva a criança a adquirir hábitos de trabalho, como é a frequência da escola, como é a colaboração em pequenas tarefas domésticas, como é o fazer os deveres escolares, como é o de ter arrumados os seus brinquedos, como é o de apanhar os papéis que deixou cair ao chão, etc. etc.

Não percebo porque é que os professores lhes não hão-de marcar deveres para fazerem em casa, desde que se não caia no exagero. É uma forma de ajudar a criança a compreender que se não estuda apenas na escola e de a ensinar a gerir bem o tempo disponível.

É verdade que havendo trabalhos escolares para casa isso reclama a assistência dos pais. Têm de dar às crianças tempo para os fazer, têm de criar um ambiente de tranquilidade para que os façam bem, têm de ver se os fizeram e como os fizeram e de corrigirem o que porventura esteja errado.

Mas o facto de terem matriculado os filhos na escola não significa que com isso terminem as responsabilidades educativas dos pais, e uma das primeiras exigências da paternidade, que se pretende livre e responsável, é ter tempo e disposição para os filhos.

As crianças têm o direito de brincarem. Os adultos têm o dever de deixar às crianças tempo para brincarem e de lhes darem condições para isso. Mas o dia-a-dia da criança não pode ser exclusivamente para a brincadeira e para a televisão.

Educar também é levar a criança a ser disciplinada e organizada. Educar também é levar a criança a tomar consciência de que além de direitos também possui deveres, e de que deve habituar-se a cumprir estes no tempo devido e com a perfeição possível.

Não entendo educação sem exigência. Uma exigência humana e racional. Uma exigência que não vá além do que cada um pode e deve fazer. Uma exigência que atenda às circunstâncias concretas em que cada um vive. Mas exigência.

Estou persuadido de que no que respeita ao trato com as crianças tem havido dois exageros: o dos que as amimalham em excesso e as superprotegem e o dos que as maltratam; o dos que as envolvem em algodão em rama e o dos que lhes recusam os meios necessários para suportarem o rigor das intempéries.

Também aqui é necessário que impere o bom senso. E, modéstia à parte, é isso apenas que esta reflexão pretende: ser a voz do bom senso e apelar a que o bom senso impere. Ou será que estou enganado?




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