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806. Meu caro Zé:

1 Sabes, por acaso, o que distingue a maioria do serviço público de hoje do de outros tempos? Claro que nunca pensaste nisso, também, pudera, se tens tanto em que pensar: contas de água, luz, telefone, impostos, taxas, derramas e coimas, a crise, a tanga… o futuro dos filhos!

N/D
24 Nov 2004

Pois é. Mas eu penso por ti: o que distingue, fundamentalmente, a maioria do serviço público de outros tempos do de hoje, não é uma questão de continente, mas de conteúdo. Isto é, aquele destinava-se a servir, enquanto que este tem mais a ver com o servir-se!
Em termos concretos, meu velho, já que és bué de bronco, gostas mais de futebol e de quintas de celebridades e, como tal, precisas que te troquem as coisas por miúdos, noutros tempos o homem público movia-se por um maior dever de lealdade, colaboração e doação à comunidade e à res publica (casos de governantes, autarcas, dirigentes, gestores, fun-cionalismo em geral).

Frequentemente, víamos, por exemplo, presidentes de Câmara ou de Juntas de Freguesia com um enorme e sincero espírito de missão e sacrifício, exercendo os seus cargos pouco mais que graciosamente. E, igualmente, os vereadores eram escolhidos pelo seu reconhecido mérito humano, profissional e intelectual, assim como a maior parte dos funcionários de repartições públicas se davam ao seu serviço com mais disponibilidade, responsabilidade, competência e doação!

Em suma, vê se percebes, o ser era muito mais importante que o ter e o dar mais que o receber! A instituição era o homem e não o homem a instituição! Tal como o escritor, o pintor ou o artista que põe na sua obra a marca da sua idiossincrasia e genialidade!

2. E hoje, caro Zé? Declaradamente, o que move certos servidores públicos é a cobiça do poder, a promoção, a influência, o dinheiro! Numa palavra: o servi-se! A si próprio e aos seus correligionários, compadres e amigos (por esta ordem de prioridades, isso mesmo).

Por isso, e segundo dados estatísticos, não sei se sabes, que, desde o 25 de Abril, o país já teve treze primeiros-ministros e vinte e dois governos! Ora, isto só tem uma leitura: a instabilidade governativa é o pão-nosso de cada dia e o atraso económico o nosso permanente estado social!

Ora, isto é mau por duas razões: a primeira, os governantes não têm tempo de mostrar o que, realmente, valem; e a segunda, os cidadãos cada vez mais descrêem dos homens e das instituições. E, consequentemente, começam a ver a política e os políticos como um mal, que por ser necessário, os aflige duplamente!

Depois, nesta lógica do salve-se quem puder, as instituições são servidas por gente de segunda, terceira ou quarta escolha. E na base de um enquadramento de compadrio, influências e fulanização que põe e dispõe a seu bel-prazer as pedras no xadrez político-partidário do país.

Percebes, agora, meu velho, a diferença entre a maior parte do serviço público de hoje e o de outros tempos? Espero que tenhas compreendido e não me obrigues a ser mais explícito. Até para não teres de me ver no xadrez, porque isto de liberdade, só mesmo a de… pensamento!

Depois, como se costuma dizer em bom português, quanto mais se mexe nela, mais ela fede!

Venham daí esses ossos e até de hoje a oito!




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