Fotografia:
Bandeiras de morte

Alguém sabe o que pensam os políticos? Ao contrário do que uma visão simplista e cronocentrista da História poderia levar-nos a pensar, a questão não é exclusiva dos dias de hoje, embora possamos envolvê-la, na actualidade, em contextos e contornos que constituem, em última análise, a razão pela qual a História nunca se repete.

N/D
23 Nov 2004

Se é verdade, por um lado, que a tensão entre ideologia e estratégia determinou, um sem número de vezes, o colapso maquiavélico da primeira em favor da segunda, não deixa de ser curioso que a sociedade da informação e da educação das massas seja a mesma em que se proclama a morte das ideologias e o fim da História. Permitam-me uma ingenuidade: a subordinação das ideias, das convicções e das ideologias à estratégia e à táctica subvertem a política e a democracia.

Talvez por isso, o exercício da cidadania coloca questões que estão para lá do facto, indesmentível, de que a informação nos entra pelos olhos dentro. Para lá das afirmações dos que não dizem o que pensam, dos que dizem o que não pensam e dos muitos que tudo dizem sem pensarem absolutamente nada, alguma coisa tem que ficar. A análise responsável da realidade pressupõe um esforço de interpretação, sob pena de ignorância.

Há poucas semanas, uma jovem, creio que da Amadora, foi julgada pela prática de aborto e absolvida por falta de provas. À porta do tribunal, militantes de vários partidos de esquerda e de algumas organizações pró-aborto manifestavam-se.

A comunicação social divulgou amplamente o acontecimento. A argumentação dos manifestantes foi exactamente a do costume, quando estava em julgamento a prática de um aborto às dezanove semanas, que seria punível como crime se o aborto fosse livre, como se pretendia, até às dez ou doze semanas, ou seja, se os defensores da despenalização da IVG tivessem vencido aquele incómodo referendo que perderam.

Ignoro de onde vem a falta de vergonha de quem se manifesta contra um julgamento de uma pessoa que seria julgada na mesma se a lei fosse outra, ocultando esse facto como quem apaga o Trotsky de uma fotografia. O que não devemos ignorar é que a questão do aborto é, há muito tempo, mais táctica do que outra coisa.

Só assim se compreende que o PCP, por exemplo, seja o mais feroz opositor de uma lei apresentada e defendida com unhas e dentes em 1984… pelo PCP. Do mesmo modo, só assim se entende que uma certa esquerda que estima – atirando para o ar um número – em dezasseis mil o número de abortos clandestinos por ano defenda que a lei actual não serviu para nada e que nada foi feito, quando em 1985 dizia que havia quatrocentos mil abortos clandestinos anualmente.

Talvez assim se faça luz sobre os motivos que levam certos partidos a recusarem aguardar pelos resultados de um estudo encomendado pela Assembleia da República, sob proposta desses mesmos partidos, relativo à dimensão, causas e soluções para a questão do aborto.

Só pelo desespero se vislumbra explicação para essa trafulhice democrática que parece ser a recente proposta de suspensão da aplicação da lei actualmente em vigor (pergunto a propósito, se um julgamento por crime de aborto praticado, por exemplo, às trinta e duas semanas de gravidez, deve ou não ser suspenso em caso de aprovação da tenebrosa suspensão).

A vitória da economia de mercado como sistema que melhor garante o bem estar social e a democracia foi a grande derrota da esquerda, mesmo da mais moderada. Por outro lado, a evolução das sociedades contemporâneas ditou a assimilação de valores socialmente liberais, descapitalizando ideologicamente a esquerda, principalmente aquela que não se soube reformar e renovar.

Este esvaziamento ideológico, que confina a esquerda retrógrada a pouco mais que a oposição à globalização, o aborto e essa provocação dos casamentos gay (independentemente de discutirmos se é justo ou não que um casal homossexual possa, querendo, servir-se de um instituto de direito civil que produza efeitos pessoais e patrimoniais mais ou menos semelhantes aos do casamento civil, preservando a identidade própria e historicamente determinada do direito matrimonial), está na origem da subversão do debate político em questões tão sérias como a do aborto, transformando este drama num instrumento escabroso de propaganda e agitação de massas, rejeitando a abertura para procurar soluções legais (que as há, variadíssimas, e que deviam ser discutidas) em nome de uma bandeira de morte.

Lamentavelmente, há quem entenda que os fins justificam os meios. Se não estivermos atentos não reparamos nos pormenores. Este é apenas um exemplo.




Notícias relacionadas


Scroll Up