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A dignidade das crianças

Devemos tratar a criança com todo o respeito e consideração como se tratasse dum adulto, mas sem nunca nos esquecermos que é criança. Deve ser a pomba que se tem nas mãos: se a apertar demais ela morre e se a largar ela foge

N/D
22 Nov 2004

Portugal é um dos países sem garantias de protecção às crianças. Mais um ranking em que aparecemos no pelotão da frente. Vergonha. Vai ser obrigatória a denúncia de crianças que cheguem mal tratadas aos hospitais. Necessária a medida mas pecando por tardia.
Que miséria a nossa que quando acordamos já o dia vai alto! Vai começar, finalmente, o julgamento dos implicados no abuso de menores e ou adolescentes da Casa Pia. Um escândalo que as consciências ainda não assumiram sem repugnância.

Oxalá a côdea que se criou com o passar do tempo não desvirtue a verdade do miolo.

Tudo isto é presente. Tudo isto denuncia uma enormíssima falta de respeito para com as crianças portuguesas. Dir-me-ão que lá fora também a pedofilia existe, que os maus tratos são uma constante, que a fome e a miséria têm as suas vítimas privilegiadas nas crianças, que a peste, a guerra e a epidemia coabitam sempre, e em primeiro lugar, com esses seres indefesos, etc. etc.. Com o mal dos outros podemos nós bem.

A maioria das pessoas, incluindo pais e educadores, não sabem lidar com crianças. Dois jovens constituem familia, (jovens de sexos diferentes, agora é preciso reforçar a ideia) e, de imediato, sem saber nada de educação, passam a ser encarregados de educação do filho. Que preparação tiveram? Zero. Na maiorias das vezes as crianças só têm deveres, porque quanto aos seus direitos, nicles.

A teoria do homúnculo, isto é, fazer da criança homem com todas as suas responsabilidades, acabou há muito; também fazer da criança aquele bebezinho imbecil que se tem tentado fazer, é igualmente desajustado.

Alguns desenhos animados contam histórias duma infantilidade redutiva, ou duma dimensão adulta desproporcionada. Onde está o meio termo? Devemos tratar a criança com todo o respeito e consideração como se tratasse dum adulto, mas sem nunca nos esquecermos que é criança.

Deve ser a pomba que se tem nas mãos: se a apertar demais ela morre e se a largar ela foge. Eis a pedagogia da educação, se pedagogia ainda é saber conduzir alguém para alguma coisa. Num anúncio que tem passado na televisão, há uma criança que é enxotada pela irmã adolescente, repelida por um irmão impertinente e afastada por uma mãe impaciente. Nunca deveria haver pressa para atender uma criança. Nunca.

Nenhum deles consegue suportar a presença do miúdo. E se ele fosse irmão e filho de amigos? Como dizia uma criança: quem me dera ser filho dos amigos dos meus pais para poder saltar nos sofás sem que me ralhassem. Ele, o miúdo do anúncio, refugia-se no quarto de banho e manda ao pai um mail pedindo uma casa para si.

O pai ri-se mas, em vez de rir, devia chorar. Devia perceber que aquele miúdo lança um grito de desespero e atira ao pais e a todos nós um aviso muito sério: ele que ter um espaço para si e ninguém lho concede; quer ter consideração e ninguém lha outorga, quer viver no seu sonho e todos lhe cortam as asas.

E o pai, ainda que com um sorriso terno, não vê senão a ingenuidade do filho quando ele reclama, quando deveria ver, isso sim, um sinal do filho que é alguém que tem o direito de fugir àquela asfixia. A Declaração dos Direitos da Criança é um hino de compreensão, sensibilidade e amor, mas, infelizmente, como hino que é, toca apenas algumas vezes para ficar letra morta todas as outras vezes.

Educar os pais e os educadores em geral para o magno problema do respeito pela dignidade da criança, é uma necessidade e um imperativo. Também aqui, como a criança do anúncio, precisamos de um grito que se faça ouvir e repercutir em todas as consciências.




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