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Liberdade com responsabilidade

Liberdade de imprensa, no sentido rigoroso da palavra, será o direito de cada exprimir em órgãos de comunicação social o seu pensamento, a sua consciência da verdade.

N/D
20 Nov 2004

Este conceito teórico tem, na prática, duas faces: quem detém o poder não deve cercear directa ou indirectamente o direito de pensamento e de livre expressão de opinião; quem exerce essa profissão deve ser coerente com a sua consciência e dizer apenas a verdade (ou aquilo que em consciência entende por verdade).
Aquilo que em consciência entende por verdade ou a sua verdade subjectiva, porque a verdade objectiva pode não ser exactamente a mesma coisa; mas é aquilo que, naquele momento, o sujeito entende que é a verdade. Se cada um tem o direito de pensar livremente e de livremente exprimir a sua consciência da verdade, é preciso que essa verdade seja tão rigorosa como a procura da verdade científica.

A procura da verdade objectiva deveria ser sempre o objectivo de quem pretende exprimir por escrito a sua opinião.

Qualquer pessoa deve ser fiel à sua consciência ao emitir uma opinião. Se tem dúvidas, deve procurar informar-se para as esclarecer.

A liberdade de imprensa não pode significar cada um dizer o que pessoalmente lhe convém ou o que convém aos seus interesses.

Se um órgão de comunicação social é do partido B ou do partido C, ele reflecte apenas as ideias do partido ou selecciona apenas os factos que lhe convêm mostrar. Será isto liberdade de imprensa? Talvez apenas fidelidade de imprensa.

Mas isto tanto se passa na política como nos negócios como nos grupos desportivos ou outros grupos de poder.

A questão que teoricamente aqui se põe é esta: será que todos os que utilizam esse órgão de comunicação estão convencidos de que a verdade é apenas aquilo que eles dizem?

Admito que haja alguns coerentes consigo mesmos, mas todos… duvido que todos estejam de consciência formada de que é assim mesmo e que não admitem sequer dúvidas sobre o assunto.

Sabemos que todo o grupo constrói seus princípios e procura ser coerente com eles para se autopreservar, não admitindo facilmente a crítica dos seus fundamentos para não correr o risco de se autodissolver.

Mas um grupo assim preservado não tem futuro, não tem liberdade de pensar, enquista-se, envelhece. Só a liberdade de pensar e de criticar mantém a frescura das instituições e promove a sua renovação.

Livre é aquele que procura a verdade e a aceita, como o investigador aceita a verdade das conclusões da sua experimentação, pelo menos até que outras venham provar o contrário.

Diante do mesmo facto, cada uma das pessoas de um grupo pode não ter a mesma opinião. Porquê? Se for porque cada um descobre aspectos diferentes da verdade desse facto, então estamos perante um enriquecimento mútuo de aspectos parciais e complementares da verdade. E isso é bom.

Mas pode acontecer que não seja bem assim, isto é, que cada sujeito tenha motivações pessoais, mesmo sem serem impostas, que o levem a sublinhar aspectos que lhe convêm, não por serem verdade, mas por conveniência pessoal.

Já não digo só por obediência ideológica. Imaginem que um dos sujeitos é uma pessoa negativista, que está sempre no contra: esse só verá os aspectos contra, ele não aceita a realidade, como se ela o agredisse (já vi disso muitas vezes).

Imaginem que um outro sujeito tem um espírito aberto e conciliador: esse tenderá a ver os aspectos em confronto como partes que se podem eventualmente conciliar e construir uma nova síntese (todos conheceremos casos desses).

Imaginem que outro sujeito é uma pessoa tímida: esse tenderá a aceitar ou a posição dominante ou, se for uma pessoa complexada, lhe apeteça sempre morder naqueles que representam o poder. E por aí adiante.

Acham que isto é meramente teórico? Basta confrontar dois ou mais órgãos de comunicação ou então reparar no modo como certos jornalistas fazem perguntas ou conduzem entrevistas.

À liberdade de imprensa deve corresponder a responsabilidade de imprensa (também os que trabalham na imprensa devem ter respeito pela verdade, consciência ética, respeito pelos direitos dos outros).

A vida ensina que a controvérsia pouco mais faz do que levantar e extremar paixões. E só quando elas serenam é que emerge a verdade. É que a verdade é humilde.

Não precisa de gritar ou de se empolar para ter razão. Liberdade de imprensa não significa irreverência ou diletantismo.

Penso que o respeito pela verdade e o respeito pela opinião dos outros devem ser dois pressupostos indispensáveis para qualquer jornalista.




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