Fotografia:
«Aspomania»

Há uns tempos a esta parte tem-se assistido a uma proliferação de lugares comuns que é, como quem diz, de repetição de moda do linguajar. É o interactivo, é o virtual, é a gerência, é o incontornável, é o é assim, tudo entre aspas.

N/D
19 Nov 2004

Mas, depois do portanto, que já vem de longe, aquela a que acho mais piada é o entre aspas. Hoje qualquer analfabeto primário ou funcional, aparece na TV ou onde quer que seja a dizer entre aspas. Muitos deles, a princípio não sabiam para que serviam as aspas, embora no meu tempo isso se aprendesse na escolinha (primária). Agora é ensino básico (entre aspas). É mais bombástico…
Porém, com tantos entre aspas, deduziram pelo contexto e ficaram a saber para que serviam. De tal modo que, com tantos entre aspas, da oralidade passaram à escrita; e agora atiram com as aspas a torto e a direito. Basta aparecer um vocábulo mais esquisito e não escapa a levar com as aspinhas em cima. Como diz outro, é um espectáculo… entre aspas.

Outra moda que se verifica ser ubíqua aparece na técnica mas não duvido que qualquer dia passe à linguagem corrente. Trata-se do plus (entre aspas). Há supermercados plus, computadores plus, foto plus, máquinas plus, folhas A4 plus ultra (estas até ultrapassam o plus) e et coetera (entre aspas).

Já que estamos no latim, só falta o excremento plus, escatologia que remeto para a diarreia…

Outra moda: a gestão. Gere-se tudo: a água, o ar, a terra e o fogo, enfim os quatro elementos…

É curioso como aboliram o latim e agora andam todos a recorrer a ele. Só que, quando o pronunciam, é calinada de meia noite: é o habitá, é a securítas, é a cannábis, é o placibo, é a mídia e outros disparates.

Meus senhores, já chega de tanta macaquice de imitação. Bem sei que já no século XIX isto era uma praga, a ponto de o mestre Eça de Queirós dizer que os portugueses eram (abrir aspas) uma raça de copistas e imitadores (fechar aspas).

Bem sei que a criatividade é um dom, quer dizer, nem todos têm. Mas, se não podemos originais, que ao menos não sejamos bichos dos pinheiros (processionárias) a copiar tudo o que os outros dizem. Somos tão maria-vai-com-as-outras que até copiamos os erros dos outros.

Estar eu a dizer isto é o mesmo que estar calado. Vox clamantis in deserto (entre aspas). Não soubesse eu o gado com que lido…




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