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Ir na onda

Corre-se mais a favor do que contra o vento. Ir na onda é, naturalmente, um comportamento mais fácil do que ter de fazer o esforço de remar contra a maré. Mas será essa, em todas as circunstâncias, a atitude mais aconselhável e mais digna?

N/D
18 Nov 2004

Ir na onda consiste em deixar-se levar. Em ir atrás dos outros. Em certos casos, em agir mais como autómato do que como ser pensante.

Ir na onda pode ser isso de vestir de forma a andar com o umbigo à mostra; de defender certas posições como essa de estar a favor do aborto ou dos casamentos homossexuais; de fazer tatuagens no corpo ou de se iniciar no consumo do tabaco; de abandonar a prática religiosa ou de usar o palavrão, unicamente porque outros também assim procedem.

Porque se deixam levar pelo que outros fazem ou pelo que outros dizem, há noivas que se apresentam na igreja muito sumariamente vestidas. Há bodas de casamento e festas de baptizado e de primeira comunhão em que se fazem gastos exagerados. Há pessoas – jovens e adultos – que na passagem de ano trocam o ambiente acolhedor da família pelo de uma casa de diversão. Há quem não conceba ser possível passar férias a não ser no Algarve ou no estrangeiro.

Há pessoas para quem a norma de conduta são os outros. Actuam assim porque os outros também fazem assim e querem que em Portugal se legisle em determinado sentido porque noutros países também assim se legislou.

Não cuidam de saber se o que os outros fazem ou deliberam é ou não acertado. Isso não conta. Limitam-se a copiar. Servilmente. Cegamente. Sem critério.

É pena que, nisto de copiar comportamentos, se privilegie como modelo o do disparate, e se não repare na forma como actuam as muitas outras pessoas que ainda têm a noção do ridículo, pensam pela sua cabeça, não têm receio de serem diferentes.

É mais que oportuno lembrar que eu sou eu e os outros são os outros. Sou eu que devo mandar em mim e não me prestigio se embarcar no seguidismo acrítico dos outros.

Devo fazer, sempre e em tudo, o que em consciência entendo que devo fazer e não o que vejo fazer. Devo dizer o que em consciência entendo que devo dizer e não o que ouço dizer.

É imperioso ajudar as pessoas, sobretudo as mais jovens, a exercerem o seu sentido crítico. A construírem e a afirmarem a sua personalidade. A agirem como seres conscientes, livres e responsáveis e não a resignarem-se à condição de seres telecomandados.

Que as pessoas não tenham vergonha de se afirmarem, de serem diferentes, de exprimirem as próprias opiniões, de discordarem, de não irem na onda.

Vem a propósito recordar um poema de Sophia de Mello Breyner que Francisco Fanhais musicou:

Porque os outros se mascaram e tu não,
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão,
Porque os outros têm medo mas tu não…

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão,
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendos,
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos,
Porque os outros calculam mas tu não.

Tu, não. Infelizmente há quem não saiba ou não tenha a coragem de dizer não à ditadura da moda, ao respeito humano, às teorias peregrinas de falsos mestres, à pretensão de parecer moderno. O resultado é esse desfilar quotidiano de marionetas.




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