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Em fuga para diante, a América

Se a Democracia se vai transformar na “ditadura dos volúveis e indecisos” telecomandados por “lobbies” ou por associações secretas (o que em parte, aliás, já acontece) então haverá cada vez menos verdadeiros democratas e o sistema cairáde podre, um dia. A América irá “down hill”, qual “nova Atlântida” sobrepovoada pelos piores cegos, que são aqueles que não querem ver

N/D
18 Nov 2004

1- Uma grande oportunidade desperdiçada – O mundo civilizado esperava que a tão apregoada “alternância eleitoral democrática” afastasse G. W. Bush da presidência e permitisse à “outra América” (a mais prudente, mais culta, mais generosa, mais respeitadora, mais europeia) tomar finalmente conta do Poder e resolver de forma mais consensual a questão do Iraque.

Porém, essa válvula de escape própria da Democracia, não funcionou… Kerry perdeu por 48 contra 51% e a América vai provavelmente ter de esperar que mais 4 terrivelmente longos anos se escoem lentamente, até que possa finalmente (se achar que isso lhe é conveniente) começar a “lavar a cara” perante o Mundo.

Antevejo até, que por muitos anos não irá ser fácil aos bisnetos de Washington reporem a antiga imagem de povo amante da Liberdade e defensor dos oprimidos, que os fez oficialmente intervir nos 2 conflitos mundiais e nas guerras da Coreia e Viet-Nam.

2 – O medo foi um péssimo conselheiro – Com excepção das indústrias do armamento, petróleo, computadores e bancos, a Economia norte-americana anda bastante avariada. É certo que a “contabilidade criativa” ajudou por algum tempo a esconder o fenómeno, em relação aos próprios americanos. Mas estes hoje já sabem que o seu país está ainda bem mais endividado que no tempo de Clinton. A própria guerra do Iraque “torra” todos os meses, largas centenas de milhões de contos (e os votantes estão disso bem cientes).

Se, pois, os salários e as pensões diminuem, o Sistema de Saúde piora, a Economia vai mal, o Crime organizado prospera, a imigração ilegal continua, as florestas do cénico Oeste ardem no verão e a imagem do país no exterior anda tão degradada por causa da opressão que infligem ao Iraque, como é que os estadunidenses não aproveitaram estas eleições para mudar de política?

A explicação parece residir no “excesso de” medo que os Republicanos de Bush conseguiram instilar na maioria do eleitorado. Ao ponto de este medo avassalador, este terror geral, este “delirium tremens” ter criado entre boa parte da “yankee nation” uma obsessão anti-islâmica, anti-árabe, logo (e em sentido próprio) anti-semita.

O que é aliás irónico, pois os judeus vêm-se apropriando desde há décadas deste mesmo conceito de “anti-semitismo”, dando lhe o significado (errado e parcial, hoje quase antitético…) de “anti-judaísmo”.

Mais grave ainda, os americanos não conseguiram perceber que os “métodos” de W. Bush para erradicar o perigo de um qualquer futuro macro-atentado do tipo 11 de Setembro de 2001 (ou pior…) têm-se revelado um completo e grave desastre.

Se a situação criada com a (aceitável) intervenção americana no Afeganistão conduziu à necessidade de permanente ocupação desse país pobre e selvagem, por um número indeterminado de anos, já a invasão do Iraque é uma aventura sem sentido, anacrónica, injusta, baseada em falsos pressupostos e mentiras. E configuradora de uma duradoura e perigosa provocação a boa parte dos povos arabo-islâmicos.

Provocação essa que pode ter graves consequências a nível de segurança interna do povo americano. E que, ainda por cima, se tem desde já, revelado bastante limitadora das próprias Liberdades dentro do território dos E.U.A..

Pensou-se que a “aparição” de Bin Laden no troço final da campanha eleitoral fosse a prova provada do fracasso de Bush. E numa nação normal seria. Numa nação que não tivesse sido mantida artificialmente num clima de terror e guerra. Uma nação normal teria logo percebido a óbvia mensagem que o árabe quis implementar no lugar de (mais um) qualquer atentado, em vez dele.

Porém, nesta América “bushiana”, algo ganaderizada e infantilizada, tomada pelo medo, foi tiro que saiu pela culatra. A América “rasgou o bilhete premiado” ao não eleger Kerry. Não abriu as válvulas de segurança, quer as da situação internacional, quer as do seu próprio sistema democrático, quem sabe… O momento é pois grave e a decepção de biliões de seres humanos é grande.

3 – Se é para isto que a Democracia serve… – A inesperada (e quase impensável) reeleição de Bush veio decerto acordar certos “fantasmas no armário”. Veio acordar certos argumentos teóricos contra o valor da própria Democracia, tão insinuantemente apregoada desde há 60 anos como “o menos mau” dos sistemas políticos. O “menos mau”, apenas isso. É possivelmente “má”, mas é a menos má de todas as formas de governo, dizem.

Um daqueles argumentos depreciativos é o de que, em Democracia o voto do cidadão inculto vale tanto como o do sábio, e os incultos são realmente (e hoje cada vez mais…) a grande maioria. Outro é o de que, em Democracia, é uma pequena minoria de 10 a 15% de indecisos (muitos deles decidindo por motivos fúteis e por isso mesmo facilmente enganáveis) que determinam quem vai efectivamente governar.

São esses indecisos, devidamente manobrados, quem “decide”; e não os cidadãos capazes e conhecedores dos problemas. Estes últimos é que terão de acatar a vontade daquelas outros, os ignorantes e os indecisos.

Se a Democracia se vai transformar na “ditadura dos volúveis e indecisos” telecomandados por “lobbies” ou por associações secretas (o que em parte, aliás, já acontece) então haverá cada vez menos verdadeiros democratas e o sistema cairá de podre, um dia. A América irá “down hill”, qual “nova Atlântida” sobrepovoada pelos piores cegos, que são aqueles que não querem ver.

As minhas condolências, sentidas, ao casal Kerry. E em especial a essa notável Teresa Heinz, uma quase conterrânea minha, que por tão pouco não se domiciliou no célebre alvo palácio, às margens do Potomac.




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