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Famílias de afecto versus famílias de afecto

Li […] na Revista Visão e durante o fim de semana nos diários de Braga artigos acerca de um projecto inovador em Portugal, mais concretamente em Braga, denominado “Famílias de Afecto”.

N/D
17 Nov 2004

Fiquei chocada, até bastante indignada, quando num desses artigos li que «as crianças se encontram amontoadas nas Instituições».
Primeiro, é gritante a falta de sensibilidade e respeito por essas crianças porque, amontoados estão os papéis, a roupa suja, os sacos de lixo e tantas outras coisas que não prestam.

Segundo, as nossas crianças não são nem uma coisa nem outra. São seres humanos a quem nós queremos muito.

Conheço algumas Instituições como colaboradora voluntária, há vários anos; por isso não vou falar sem conhecimento de causa e o que vejo e assisto diariamente em nada corresponde ao que é descrito no artigo em referência.

Se classificam de amontoado um quarto para uma, duas ou três crianças, uma casa de banho para o mesmo número, uma sala de estudo para o grupo com a presença efectiva de uma pessoa para explicar e orientar, uma sala de televisão, música e convívio, biblioteca, um refeitório e copa devidamente equipado, limpo e adequado, lavandaria, um salão para dança, jogos, encontros, festas, campo para prática de desporto, atelier de pintura, quinta pedagógica, etc., eu pergunto: isto é viver amontoadas? Por favor, revejam o verdadeiro significado da palavra “amontoado”.

Pelo que dizem, pelo que dão, por tudo o que suportam 24 horas por dia, as mulheres e homens, funcionários ou voluntários, que trabalham nessas Instituições merecem, senão mais, no mínimo a nossa profunda admiração.

Oferecem às crianças um Lar, ajuda, assistência, carinho, um projecto de vida. Por isso, os anos que permanecem institucionalizadas não são um paliativo, até aos 18 anos, como dá a entender o referido artigo.

O projecto “Famílias de Afecto” no seu todo e analisado em profundidade é bonito e de grande utilidade. Contudo considero-o a meu ver uma mais valia para as crianças e Instituições, nunca uma alternativa às mesmas.

Fundamento a minha opinião no seguinte: ao propor a algumas crianças uma família, ouvi-as recusar determinantemente a proposta: – Preferimos ficar aqui, esta é a nossa casa, disseram prontamente.

E será que o projecto ainda se mantém para todas as que aceitaram, com agrado, integrar-se numa dessas famílias?

Ou será que uma nova rejeição se faz sentir prejudicando-as eventualmente a nível emocional e afectivo?

Será que já foi feita esta avaliação? Se a fizeram esqueceram-se de publicar o resultado.

Isto, sim, é contraproducente porque foram criadas expectativas e vínculos afectivos a estas crianças, que decorrido algum tempo as pode levar a verem-se mais uma vez abandonadas e não queridas. Parece-me que é bem pior passar por esta situação do que viver numa Instituição.

Pergunto a quem criou o projecto ou o importou para Portugal: Não se estaria a construir o projecto começando pela última fase? Não será necessário trabalhar seriamente as famílias, que cheias de boa vontade mas sem conhecimento profundo da problemática que envolve estas crianças, se candidatam a famílias de afecto?

Terão as famílias em causa capacidade, para a nível afectivo, saber tratar da mesma forma os filhos e estas crianças que acolhem?

Pela experiência que tenho, pelo que tenho lido e reflectido acerca da problemática das crianças institucionalizadas, e porque lido muito de perto com estas crianças, elas precisam muito mais de carinho, acompanhamento e ajuda, do que de um quarto individual, um óptimo presente no dia do aniversário, um jantar no Mc’donald’s; resumindo, de tudo aquilo que o dinheiro dessas famílias pode comprar.

Partilho da opinião de que seria maravilhoso que as Instituições, para esse fim, acabassem, assim como não fosse necessário arranjar famílias de afecto, e que todas as crianças permanecessem no seio familiar, mas todos nós sabemos que isto é impossível.

Assim sendo, quando se publica um artigo, julgo ser necessário um cuidado redobrado quando o assunto envolve várias pessoas em campos diferentes. Só a opinião de todas, pode dar a veracidade exigida a um artigo sério.




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