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Chover no molhado (49)

A morte à dor que me tritura pede, para mim, a intervenção do abraço cooperante do sacerdote e do psicanalista

N/D
17 Nov 2004

Advoga-se, prioritariamente, o processo de sintonização da pessoa consigo mesma, como condição, sine qua non, para a eficiente integração no meio social e, simultaneamente, ser livre agente activo do crescimento da paz, da ordem, da segurança e da justiça, em recíproca cooperação com a comunidade a que pertence.
Pergunto: O que é que, prioritariamente, justifica a exigência do processo de sintonização da pessoa consigo mesma? Não creio ser o facto de se poder integrar com eficiência no meio social nem o facto de, em reciprocidade de cooperação com a sua comunidade, vir a fomentar também o crescimento da paz, da ordem, da segurança e da justiça. Isto são apenas prolongamentos daquilo que justifica, exigindo, a sua sintonização. O que é, então, que justifica as exigências de sintonização da pessoa consigo mesma? É a sua origem. Qual é, pois, a origem dessa sintonização?

Afinal quem sou eu, pessoa humana? Sou a unidade das unidades das minhas muitas formas. E eu, unidade das unidades, de onde venho? Qual é a mansão que me agasalha? É o uno. Eu venho do Uno, venho do meu ser profundo. O Uno é vida; é dinamismo; é processo; é esplendor; é amor; é alegria e contentamento. É semelhante à língua e ao coração de Deus. O Uno, meu ser profundo, é religioso.

E para onde vai a pessoa? Qual o destino que a acalenta e motiva? É o regresso ao ponto de partida: ao Uno, ao dinamismo, ao religioso, ao amor.

Agora, por onde vai a pessoa? Qual o caminho que, prioritariamente, a conduz à sua espiritualidade, ao clarão do Uno? É a sintonização da pessoa consigo mesma e o crescimento efectivo das suas potencialidades.

Está, creio, justificada a exigência de socialização intrínseca da pessoa. Pois, ao regressar ao Uno, à língua e coração de Deus, assim a pessoa vai unir-se e cooperar consigo mesma; assim vai manifestar, progressivamente, em qualquer comunidade, a paz, a ordem… a justiça.

Finalmente, para onde vai a pessoa? Para a unidade com Deus através da realidade concreta.

Tudo parece correr sobre rodas. Não há resistências. A teoria é assim. Gosta de se auto-satisfazer, tanto na alegria como na tristeza. Já a experiência pessoal parece tudo contradizer. Polvilha de obstáculos. Nunca está pelos ajustes. Há sempre um senão.

Qual é, então, o problema?

Vou pegar novamente na pessoa e dizer que ela é o indivíduo, livre e inteligente com a missão, outorgada pelo seu ser profundo, de estabelecer relações progressivamente ajustadas à realidade total. Assim satisfaz os desejos profundos do seu profundo Ser – a vida, o dinamismo, o esplendor, o amor, a religiosidade – enrolados nas potencialidades existen-ciais da pessoa.

A pessoa está indelevelmente crismada com o dom e a graça da liberdade.
Como é livre, pode escolher e determinar-se; da determinação sai a conduta; da conduta sai a verdade e a mentira; da mentira sai o incómodo: um bater do punho e um ranger dos dentes.

Acontece, porém, que a pessoa escolhe segundo os seus desejos. Agora, entre o estabelecimento das suas direcções e os desejos do seu Ser profundo, pode levantar-se uma fecunda e desgraçada desorientação. Então, da íntima desorientação da pessoa, segue-se o esfarelamento da sua unidade. Corta-se a sua conexão; endurece a interdependência isola-se a cooperação. Pavoneiam-se as dicotomias, as cisões da personalidade, as dessintonias.

Alastra na pessoa o caos e nela incendeia-se a violência e crepita a ira; afoga-se na angústia; persegue-a a culpa e aguilhoa-a o medo.

Instala-se a dúvida; lavra a desorientação; ferve a inquietação; apunhala-a o pessimismo; avespinha-se a desconfiança; morde-a, ferozmente, o remorso.

E eu, pessoa, de todo este monte de tragédia que se abate sobre mim e me esmaga, tenho uma triste e dolorosa consciência. Canso-me de tantas vezes questionar o porquê de tanta enfadonha desgraça! De onde irradia? Onde se ocultam os seus motivos? Que cortina venda os meus olhos? Não sei. Mas sei que, desgraçadamente, a sinto e vivo.

Eu, que assim me encontro, que posso esperar de mim? Drama é só drama!

Eu, que assim me encontro, que posso levar ao outro? Tragédia e só tragédia?

Quem me liberta? Quem tem dó de mim e do outro que comigo se relaciona?

Quem apaga, no perdão, esta culpa tormentosa?

Quem me ajuda a dissolver o acre desta teimosa angústia?

Aberto, sem resistências, e aceitador da minha culpa, a quem vou, então, dirigir-me e pedir ajuda para fugir às grades desta cadeia?

Doravante, o perdão para a minha culpa vou buscá-lo ao sacerdote. O emaranhado da minha ácida angústia, que ignoro de onde vem, nem tão pouco onde vai parar, entrego-o ao psicanalista. A morte à dor que me tritura pede, para mim, a intervenção do abraço cooperante do sacerdote e do psicanalista.




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