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Deixar de ser analfabeto

Ser-se inútil é pertence ao vazio, é saber que para lá dos silêncios deste deserto, muitos a seguir a outras muitos se repetirão

N/D
15 Nov 2004

Diz-se, e com razão, que quem não está dentro do seu tempo, isto é, no tempo presente, no nosso tempo como dizem os que até do tempo se querem apropriar, raio de gente que como Crasso nunca se farta, e não sabe lidar com as novas tecnologias é analfabeto. Analfabeto no sentido de não saber o alfa e o beta da nova linguagem tecnológica, a mágica do sucesso.
A cultura que estes relegados de hoje tinham, foi ultrapassada, a ultrapassagem é sempre uma corrida em que uns ficam para trás. Entre amigos de familiares, os mais novos falavam numa linguagem informática, mails, sites, internet, fils, edit, insert, etc. etc. O grupo era animado e falavam com perfeito a vontade sinal de que se compreendiam e as mensagens corriam sem empecilhos entre eles.

Um pouco ao lado, as irmãs destes, as raparigas, trocavam conhecimentos sobre vocalis-tas, bateristas de bandas, actores de cinema, dos mais recentes filmes em exibição, de escândalos conjugais de actrizes, do casa e descasa dos da televisão portuguesa e das capas mais recentes das revistas do jet-set. Do falso que o verdadeiro esconde-se na repugnância duma publicidade panfletária.

Num canto mais recatado, oásis sem palmeiras mas de menos barulheira, a distância é um bom matador de ruídos, onde se refugiaram as senhoras mais velhas, as mamãs e duas vovós, falava-se das personagens e episódios de telenovelas, é verdade voltou a Gabriela, e das últimas nomeações da Quinta das Celebridades que de célebres só têm a pretensão, isto no dizer de uma das senhoras avós, abespinhada com a falta de chá que, pelos vistos, por lá existe em abundância, falta-lhes em maneiras o que lhes sobra em má criação, rematou como sentença sem apelo; a outra secundou, é a condizer com os músculos de um brasileiro que veio para cá abanar a árvore das patacas e consolar uma mocinha carente.

E o dono da casa, que estudou e leu, moeu, remoeu e se apaixonou pelos clássicos, que discursou, fez e dirigiu palestras e seminários, estava sem conversa, estúpido, incapaz de intervir. Entupido.

Não sabia do que se falava em nenhum dos três cantos de casa. Estava ali a mais, se a mais se conta a ocasião em que só conta a presença física. É preferível incomodar como figura do que ser aceite como figurante. Ser terra de ninguém é que não.

Falta-lhe dignidade. O ódio dos que nos não aceitam também é um sentimento.

Aprendeu naqueles momentos, e num instante, o sentimento de se ser analfabeto, de ausência de conhecimentos, de falta de bases para intervir, enfim, amargou o sabor da solidão estando entre gente, de não pertencer ao grupo; foi tão forte a percepção que o seu amor próprio abalou pelos alicerces, não ruiu como prédio a demolir, mas deixou cair as primeiras pedras do velho edifício; ali estava ele sozinho, sentado no pequeno sofá, olhando os pés na forma dos sapatos e vendo brotar da sua alma o frio da inutilidade. Ser-se inútil é pertencer ao vazio, é saber que para lá dos silêncios deste deserto, muitos a seguir a outras muitos se repetirão.

Ao reparar naquele mutismo e naquele ensimesmamento, uma das netas, chegou-se a ele, sentou-se-lhe no colo e pediu-lhe, fazendo beicinho, avô, conta-me aquela história do cavalinho preto. Eram os dedos molhados de Lázaro, tão solicitado pelo rico nos ardores do inferno, que lhe chagavam aos lábios.

A ele sim ao outro não. Como se houvesse um despertador que tocara dentro de si, deu ao diabo os seus amuos, e pôs-se a escutar os grupos, com atenção de principiante, para deixar de ser analfabeto.




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