Fotografia:
Cremação: mentalidade ou grito?

Teremos de saber enquadrar a questão da morte (e da vida) como um desafio urgente, permanente e consequente com a fé ou a falta dela

N/D
15 Nov 2004

Era o septuagésimo quinto funeral deste ano de 2004. Tinha acabado de celebrar-se o dia de ‘Fiéis Defuntos’. Uma senhora muito religiosa/praticante, pelo menos na fase da velhice – sem duvidar de igual prática ao longo da vida, mas só agora com algum conhecimento apropriado! – deixou como últimas vontades ser cremada.
Por entre surpresa e interrogação, tentei aferir ideias sobre esta temática, que tem tanto de inquietante quanto de provocatória à reflexão.

Que diz a Igreja Católica sobre este tema?

No Código de Direito Canónico refere-se, quando se fala das exéquias eclesiásticas: «A Igreja recomenda vivamente que se conserve o piedoso costume de sepultar os corpos dos defuntos; mas não proíbe a cremação, a não ser que tenha sido preferida por razões contrárias à doutrina cristã» (cânone 1176 § 3).

O assunto volta a ser abordado sobre aqueles a quem devem ser negadas as exéquias: «Devem ser privados de exéquias eclesiásticas, a não ser que antes da morte tenham dado algum sinal de arrependimento: os que escolheram a cremação do corpo próprio, por razões contrárias à fé» (cânone 1184 § 1, n.º 2).

Por seu turno, o Catecismo da Igreja Católica, diz, reportando-se ao cânone 1176, e na vertente de respeito pelos mortos: «A Igreja permite a cremação a não ser que esta ponha em causa a fé na ressurreição dos mortos» (n.º 2301).

Cremos que o caso supra citado não tem razões de natureza filosófica nem tão pouco teológica, mas antes se enquadra – segundo informações fidedignas – na segunda vertente apontada: um grito ao abandono posterior à morte!

Ao nível humano: o que leva(rá) uma pessoa a rejeitar ser enterrada e a preferir ser incinerada? Terá sido o que viu de desprezo pelo cuidado da sepultura de outros que a levou a tal atitude? Em que estado de alma se sentiu (em doença ou meramente no estado velhice) para programar essa decisão? Entenderá a família esta mensagem?

Ao nível da fé: os ritos em que participou (ou talvez ‘só’ assistiu!) não foram suficientes para interpretar a diferença entre a dimensão de fé e a linguagem sensitiva das flores e outros adereços post mortem? As celebrações litúrgicas não foram suficientemente metafísicas para a fazerem descortinar a dimensão celeste da vida?

Numa época em que os cemitérios se vão tornando campos com «um longo tapete de relva que dissimula modernas sepulturas de betão» – esta frase é citada da informação de uma câmara municipal para a entrada em funcionamento de um cemitério novo – teremos de saber enquadrar a questão da morte (e da vida) como um desafio urgente, permanente e consequente com a fé ou a falta dela.

De facto, à lugubridade dos cemitérios contrapõe-se agora uma espécie de ruralidade ao estilo americano, tornando as pessoas elementos vagos de uma história a esquecer. Os mausoléus não têm mais lugar. Os jazigos de família são substituídos por gavetões anónimos e sem qualquer alusão à fé (seja qual for a sua expressão pública ou privada) de quem partiu.

Aos adereços/sinais cristãos são colocadas dificuldades – há cemitérios onde foram ostensivamente arrancados! – para respeitar quem em vida até nem se coibiu de menosprezar a fé dos outros. «A salubridade e higiene públicas» – são expressões da citada informação camarária – tornam-se outro tipo dessa religião agnóstica, laica e um tanto contra Deus.

Será que estamos atentos a estas rápidas mudanças? Até onde irá a nossa capacidade de indiferença? Os cemitérios são, na sua maioria (poucos são de propriedade religiosa) estatais, mas neles estão em ‘última morada’ muitos crentes: não teremos de salvaguardar a sua memória? Assim saibamos preservar a nossa identidade e a nossa recordação… futura!




Notícias relacionadas


Scroll Up