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O alfabeto e a tabuada

Há dias, um concurso televisivo pedia a seis concorrentes que, em determinado período de tempo, ordenassem quatro palavras, por ordem alfabética.

N/D
14 Nov 2004

O tempo concedido era sufi-ciente e os concorrentes não eram propriamente analfabetos, muito pelo contrário. Sucede que, dos seis concorrentes, apenas três conseguiram a pedida ordenação.
Fiquei espantado e comigo, certamente, muitos telespectadores.

E se isto é assim no que concerne ao alfabeto, no que respeita à tabuada, que antigamente se sabia de cor e salteada, nem é bom falar.

Qualquer pessoa verifica que os alunos de hoje, levados por pedagogias alérgicas à memo-rização – como que a memória não seja uma faculdade humana -, substituíram essa ciência pelo uso da máquina calculadora.

Para mim, a ignorância do alfabeto e o abandono da tabuada são o primeiro grau do analfabetismo, porque o alfabeto é a primeira célula donde resulta a palavra para a construção da frase e a tabuada contém o elenco primário de dados necessários a qualquer operação algébrica.

Prescindir destes dois dados fundamentais, é a mesma coisa que não ter pernas e querer andar ou não ter boca e querer comer. O mesmo se poderá dizer do conhecimento dos rios e serras que nos rodeiam e da fauna e flora com que diariamente lidamos.

A experiência é uma extraordinária fonte de conhecimentos e, à semelhança do que fazemos com o ser humano, também devemos ter uma relação com o mundo que nos rodeia. Esta deficiência de conhecimentos resulta do sistema de ensino praticado e da recente pedagogia usada nas escolas.

Creio que, após tantas frustrações cognitivas, já era tempo de mudar de ramo e seguir método mais convincente e formativo. A verdade, porém, é que, se o método antigo tinha defeitos a corrigir, esta nova pedagogia também não convenceu. Será caso, a meu ver, para afastar radicalismos e congraçar a memória com a inteligência, no sistema educativo português. A calculadora ajuda, mas não pode substituir o estudo da tabuada, nem alienar as operações algébricas que devem ser feitas pela mente humana.

A mesma filosofia aplica-se ao uso do alfabeto e à utilização das mais elementares regras gramaticais.
São bases e alicerces de que se não pode prescindir, sob pena de empobrecermos a valoração individual da frase e de despersonalizarmos o sujeito da contabilidade.

Os disparates ouvidos, presentemente, no ecrã televisivo; as dificuldades de aprendizagem da matemática nas escolas; as defi-ciências na oralidade e a pobreza da linguagem escrita; os silêncios e as asneiras das respostas a perguntas banais de conhecimento, são provas mais que suficientes, a pedir mudança de rumo no sistema pedagógico de ensino.

E já não falo na perda dos valores morais, que enriqueceram a sociedade que herdamos e que, pouco a pouco, vão sendo abandonados. Será o caso da degradação do sistema familiar, da falta de ética no relacionamento social, na implantação do materialismo interesseiro em prejuízo da moral social, da subestimação do factor religioso como componente humana, etc., etc. Que os valores transitórios mudem e se actualizem, muito bem, mas que não deixem a sociedade sem valores morais que a dignifiquem.




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