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As nossas militâncias…

Fortes em adiar soluções, e fracos em procurar caminhos, muitos mantêm-se numa indiferença, que bem pode levar ao fundir de barcos, mas transportando diamantes e valores de graves e nobres mercadorias. Quem nos salvará da hecatombe?!

N/D
12 Nov 2004

Sempre me impressionou a forma como alguns tentam resolver tudo conforme as suas opiniões e interesses. Somos livres, mas a liberdade como a vida, tem também os seus limites como os seus valores, sejam eles morais, religiosos, éticos ou políticos.
Habituámo-nos a um certo pragmatismo e relativismo. Mesmo alguns cristãos, apesar de educação diferente, com a vida pautada por outros valores, não são melhores que os outros.

Porquê? Deficiência de catequese? Outras preocupações? Relativismo de vida e de opções? Anacronismo de certos parâmetros?…

A Igreja tenta salvar o tronco da árvore, mas alguns preocupam-se apenas em preservar os ramos, por vezes sem flores… Mas estas variam conforme as estações…

Será ou deve ser assim na actuação da Igreja, ao sabor dos ventos, das modas e das estações? Pobre mundo se assim fosse!.. Por isso muitos políticos sabem agarrar-se ao essencial de valores, embora ambíguos, como outros aos ventos da mudança e ao sabor das ondas, fleumaticamente embalados ou placidamente adormecidos, num leito de sonâmbulos, oportunistas e de fracos.

A nossa Europa está adormecida em determinados valores cristãos. Por isso a voz da Igreja, se ouvida, não é bem interpretada e sempre como fora do coro… Mesmo assim, será menos importante? Não estaremos todos narcotizados por certas ideologias e adormecidos numa morródia, que a nada leva e mais denuncia a fraqueza humana, que corrói por dentro, não se experimenta no exterior, e levou a um Paraíso ou Eden perdido de enjoados, desencantados angustiados ou sonâmbulos? Onde está o brilho das catedrais e da música de órgãos solenes?

Em tempos, o burgomestre de Berlim, católico, antes das eleições, dizia para os seus comparsas em público: “Eu sou homossexual e está bem assim!…”

Ganhou as eleições, certamente com o apoio da sua confraria, a quem o Bispo Gaillot dirigia umas interessantes palavras numa revista, para tal clientela. Por que não disse : “Eu sou católico, e está bem assim!” Talvez não tivesse tanta ressonância, como não surtiria o mesmo efeito na companhia. Efeitos de vozes-trovão em pios de piedosos adulterados…

Bush, cristão metodista, disse o que pensava. Sabe-se o que ele fez e lhe fizeram.

Mesmo assim , ganhou as eleições, com grande vantagem sobre o católico Kerry. E os estadistas europeus terão de engolir essa figura, na certeza , porém, de que, com ou sem a Europa, a América poderá viver. Mas a Europa sem a América sobreviverá muito mais fraca… Onde estámos pois?

Qual seria o mais importante: falar da permissão do aborto e da homossexualidade, ou dos valores da pátria e outros, que fazem parte da nossa tradição cristã? Mas será apenas uma tradição, num cristianismo, mais ou menos esfumado – que se encobre com as cores e cambiantes de certas seitas – , ou o que o Papa nos aponta, mesmo quando prega contra a violência e as leis que atentam contra a família ou pedindo a Paz?

Por esse motivo precisam mesmo os políticos cristãos de fazer uma grande conversão: mais do que salvar as folhas e as flores – que variam conforme as estações – , é preciso salvar o tronco, preservar a floresta, sem perder a dimensão das árvores no jardim, que são todas diferentes, produzindo cada uma flores, perfumes e frutos, não conforme os nossos gostos, mas segundo a sua natureza.

A Igreja, ao pretender salvar o tronco, corre o risco de ser mal aceite pela impopularidade da sua doutrina, mas não pode trair as suas funções, como mãe e mestra. No entanto, os seus rebentos são os cristãos, que se devem imbuir da sua doutrina, ou deixar-se penetrar por osmose nos seus princípios antropológicos.

Assim poderão desempenhar o seu papel como fermento na massa e sal a preservar da corrupção. Para isso têm de se afirmar, sem medo, mesmo em público, nem que seja a contradizer e remar contra a maré ou os ventos, que sopram contrários…

Não será isto a militância, embora no meio das ondas altaneiras, quando alguns barcos correm o perigo de naufragar? Mas isto exige personalidade. Quem a educa nos tempos que correm?

Por isso assitimos a uma morródia social, religiosa, económica e mesmo política, em que todos amanhã poderemos ser vítimas, em nome de quê e de que princípios? Ou assistimos a outra Inquisição?

Fortes em adiar soluções, e fracos em procurar caminhos, muitos mantêm-se numa indiferença, que bem pode levar ao fundir de barcos, mas transportando diamantes e valores de graves e nobres mercadorias. Quem nos salvará da hecatombe?!

Amanhã será tarde. Todos seremos chamados a contas não tanto do que fizemos, como pelo que devíamos fazer, num mundo que não tem contemplação pelas suas e nossas fraquezas, mas as encobre com os nossos defeitos. No entanto, nem pelo facto de os porcos pastarem na lama e se cobrirem com as suas cores se tornarão lírios.

“Tal como a vida, que é como um corno: quanto mais cresce, mais se torce..”( Vitor Robert)l. Quem suporta o desafio?!




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