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804. Senhor Primeiro Ministro:

1 Dizia-me, há dias, a mãe de uma recém-licenciada: – Pedi muito dinheiro emprestado para formar a minha filha e vai para três anos sem arranjar emprego. Isto é uma tremenda frustração!

N/D
10 Nov 2004

– Mas olhe que a licenciatura é uma mais-valia e ela não perde nada em tê-la – fui contemporizando.

– Só se for para encaixilhar! – insistia ela. – Se não lhe dá emprego… E com que vou eu pagar os juros do empréstimo? A gente sonha sempre o melhor para os filhos e tem direito a sonhar, só que, depois, o Estado… vociferava a pobre mãe.

– Repare, o Estado não pode garantir emprego a ninguém. E ter um diploma, uma formação universitária é sempre bom… Agora, o que não podemos é ficar a olhar para o canudo. Temos que dar a volta. – ia animando.

– Dar a volta, como? Mas mesmo que a rapariga trabalhe, não ganha, negras como estão as coisas, para pagar os juros da dívida – choramingava já.

– Olhe que o canudo é sempre sinónimo de desenrasque, de grande capacidade de aprendizagem e adaptação. E a sua filha tem as asas necessárias para voar, garantir o futuro. O momento não é dos melhores, mas…

– Tretas! E com tretas não se ganha a vida!

Calei-me. Esta mãe estava mesmo desiludida e magoada! E se calhar com carradas de razão!

2. Ora, senhor primeiro-ministro, quem tramou estes milhares de jovens licenciados no desemprego? Quem iludiu estas famílias com promessas da força de um canudo, da magia da universidade, de um futuro garantido?

Será que estamos a licenciar só para as percentagens? Diz-se que somos o país da União Europeia com mais baixa taxa de frequência do ensino superior. Então, se ele sobe mais o que vai ser destes jovens?

Penso que tudo começou com a extinção apressada e política das antigas escolas industriais e comerciais e institutos técnicos, depois do 25 de Abril. E sem planeamento e coordenação. Só porque era preciso impor a igualdade de oportunidades!

Abriram-se universidades a torto e a direito e criaram-se cursos sem olhar às necessidades sociais e empresariais. E com a febre da doutorice que, então grassava, senhor primeiro-ministro, esqueceu-se o ensino profissional e tecnológico. E estes jovens licenciados no desemprego não são mais do que o reflexo, o triste reflexo, dessa bagunçada!

E que fazer, agora? Timidamente, no presente ano lectivo, abriram-se algumas vagas no ensino superior para reciclar umas centenas de jovens. Só que, quando daqui a dois anos eles estiverem reciclados, quem lhes garante emprego ou que a reciclagem não esteja já desactualizada?

Avancemos, pois, depressa e em força com um ensino profissional e profissionalizante sério e capaz. Entusiasmemos as famílias e os jovens para o mundo do trabalho e da realidade social. Deixemos as universidades para a investigação, a criação, a inovação.

E levemos os jovens, estudantes ainda, às empresas, ao trabalho, à vida activa para contactarem e aprenderem.

Formem-se mais engenheiros de fato macaco e menos de colarinho branco. Isto é, preparem-se os jovens mais para a prática e menos para a teoria. Aprendendo a fazer, fazendo.

A ver se ainda vamos a tempo, senhor primeiro-ministro, de salvar alguma coisa.

Porque não se admire que, um dia, como as coisas estão, tenhamos um 25 de Abril dos licenciados. É que os capitães tiveram o seu e por muito menos!

Com os melhores cumprimentos e até de hoje a oito!




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