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Dois falecimentos e… um “été indien”

1 – A morte inesperada de Ildo Lobo – “Para morrer basta estar vivo”, é costume dizer-se em Portugal. E este é, sem dúvida, um dos adágios populares que mais me irrita ouvir, sobretudo pelo pessimismo que reflecte. Não foi decerto com este estado de espírito que há 600 anos partimos para as nossas epopeias africanas e brasileiras.

N/D
9 Nov 2004

Até parece que se não tivéssemos sido, à época, comandados por um meio-inglês, por esse lencastriano infante Henrique, neto do poderoso John of Gaunt e sempre prenhe daquele optimismo germano-céltico (às vezes tão infundado, aliás) não teríamos ido a parte alguma.

Ora vem isto a propósito do recente falecimento do famoso cantor cabo-verdiano Ildo Lobo, com uns meros 50 anos de idade. Ao que parece, de ataque cardíaco e “na sequência de uma queda”, na sua casa da cidade da Praia, na ilha de S. Tiago. A solo ou como vocalista do famoso grupo Tubarões, Ildo conquistara um lugar de 1.ª ordem no firmamento das estrelas da canção cabo-verdiana, sobre tudo na “morna”, na “coladera” e no “funaná”.

Um dos seus pontos altos, já lá vão bastantes anos, foi o emocionante tema “Cabral ka morri” (em português equivale a “Amilcar Cabral não morre”). Era uma figura elegante de mestiço, com uma voz quente e segura, mas sofrida e pungente, e tornou-se um ídolo entre todos os cabo-verdianos espalhados pelo mundo.

Em Portugal, quase só se conhece a rústica, ubíqua e rotunda Cesária Évora. Mas além desta há vários outros compositores e intérpretes do mesmo ou de superior quilate; desde Bonga, esse ancião de ouro, até Titina, Celina Pereira, Nácia Gomi, Tito Paris, Magda Évora (essa ilustre desconhecida) e o falecido B. Leza.

Esta antiga colónia portuguesa de África dá lições no campo da música ligeira à sua antiga metrópole europeia. Sobretudo porque os cabo-verdianos, no seu todo, são umas meras de centenas de milhar e nem todos têm sangue europeu. Parte da música que produzem é dum extremo e pungente romantismo. O ritmo da “morna” é o das ondas do mar. E aqui as interpretações são fáceis, naturais, empenhadas, aprumadas, tranquilas, carinhosas.

A fama mundial que as melodias de Cabo Verde alcançaram já é grande, mas penso eu, ainda há de chegar mais alto. E ultrapassar, p. ex., a música cubana, cujo valor é para mim inferior ao da de Cabo Verde (embora a sua qualidade seja também muito razoável).

A distância, a pobreza, a tristeza conformada e quase “alegre”, a saudade, a simplicidade de espírito das belas e escorreitas naturais do arquipélago, o passado e o presente da ligação (e emigração) para Lisboa, a lua, o mar, a beleza do Mindelo e do Atlântico são os seus temas mais frequentes.

2 – A partida de Fialho Gouveia – As pessoas da minha idade habituaram-se a ver na televisão, desde pequeninos, a figura carismática, conciliadora, quase paternal de Fialho Gouveia. Era ao mesmo tempo uma espécie de exemplar do puro sangue português, um tio mais velho, um patriarca escanhoado, um modelo de convivialidade, um galã do Sul com uma alma despojada de vaidade, um profissional reverente em relação à língua de Camões, de Queirós, Vicente, Herculano, Camilo, p. e Macedo e Torga. E era o dono duma voz sempre jovem.

Foi também como que um embaixador do anterior Regime nos media do pós-25 de Abril, pois a opinião pública esclarecida nunca esqueceu a sua adesão inicial ao Salazarismo, mesmo que na fase final deste se tivesse associado a reformadores que procuravam uma evolução que fosse menos negativa que aquela que realmente veio a acontecer.

A sua colagem ao moderado PS, nas tempestades do “PREC” esteve muito longe de ser um “virar de casaca”; foi antes, um simples “aggiornamento”, calculista mas decente.

Reapareceu há poucos anos a defender o seu Benfica contra as depredações e os escândalos da corrupta ditadura “vale-azevedista”. E depois das recentes partidas do Pessa, do Henrique Mendes e deste José Manuel Bastos Fialho Gouveia, só há que pedir a Deus que conserve o Artur Agostinho por muitos e bons…

3 – A 2.ª juventude de Manuel Alegre – Pouco antes dos passamentos de Ildo Lobo e de Fialho Gouveia teve lugar um caso de política nacional que muito me interessou. E que foi a iniciativa do veteraníssimo Manual Alegre de desafiar a candidatura de Sócrates à chefia do PS; para mais, estando a vitória deste último praticamente assegurada pela rede de clientelismos tecida pela “máquina” de tão democrático partido.

Verdade seja dita, o humanista Manuel Alegre tem o seu papel na História pátria razoavelmente denegrido por ter posto a sua “bella voce” ao serviço da Rádio Argel e por ser um dos “pais” da nossa Descolonização.

Porém, o barbado político e literato aguedense, conterrâneo do pai de Teresa Kerry, antigo estudante de Coimbra, antigo nadador, neto do “famoso” Mário Duarte do estádio do Beira Mar (e descendente de outra gente ilustre) surpreendeu pela positiva.

E isto, na medida em que protagonizou o lado bom da Democracia, que consiste na liberdade de expressão; e nessa (hoje tão esquecida) igualdade absoluta de todos os cidadãos no que respeita à sua dignidade e importância como pessoas individuais.

Utilizando eu aqui uma imagem literária criada por Alguém, há cerca de 1970 anos atrás, diria que “se (e repito, “se”) a Democracia fosse um sepulcro, são pessoas idealistas como Manuel Alegre que o ajudam de vez em quando a caiar muito branquinho”…

É verdade que o eng.º Sócrates é um agente político, digamos, “da Liga de Honra”. E tem até uma belíssima costela de ecologista (que a barragem que ameaça o rio Sabor pode vir em breve a pôr novamente à prova). Mas este natural da remota Vilar de Maçada (em Vila Real), este filho adoptivo da serra da Estrela, este príncipe do coração da viúva de Hiram (qual Barroso, qual Aguiar Branco, qual Carrilho) tem, como compete, a cabeça bastante vazia de ideias.

Penso eu que assim é, no caso, apenas por um lógica de evitar conflitos com as ideias dos directórios secretos a que provavelmente obedece. E foi assim que, ao pé de homem tão elegante, reservado e contido, o flamejante Manuel Alegre brilhou como um incêndio nocturno na serra do Caramulo. Venceu e convenceu.

Só que, os votos já estavam quase todos contados. E o veterano Alegre deve ter ido para casa a pensar que afinal não foi para alcançar esta “Democracia” que arriscou a vida, a liberdade e a saúde durante a Salazarismo… Ou teria mesmo sido?? Pois se, afinal, parece que não há outra Democracia senão esta…




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