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Chover no molhado (48)

Entre nós, rapaziada, imitando idosos de barbas cãs, contava-se esta história: – Um pai tinha quatro filhos, todos eles, por desgraça, abandonados à sorte do seu destino.

N/D
9 Nov 2004

O mais velho estava fadado para a ladroeira; o outro, a sua boa estrela prognosticava-lhe o assassínio; o mais atlético e valentão, era agressivo e brigão; o mais novo, porém, franzino e bastante piedoso, estava vocacionado para a pobreza e dedicação ao próximo.
Não pode ser! Exclama o pai. Aceitar tal sorte para os meus filhos, é uma baixeza, uma desonra. É uma facada na minha reputação. E ei-lo, então, a calcorrear apressadamente o caminho que dava para a casa da bruxa.

Relatadas que foram, uma e uma em pormenor, tais dignificantes disposições, diz-lhe a bruxa:

– Sr. José, o destino é destino. Tem de ser cumprido. Vou apenas tentar dar-lhe a volta. É o muito que lhe posso fazer. Coçou a cabeça, deu uma palmada na testa e gritou:

– Tenho uma ideia: o mais novo vai para padre. Ao agressivo e brigão assentava-lhe bem o pugilismo. O ladrão…

– Alto! Cala a boca, exclamou o Sr. José. Já sei no que estás a pensar mas olha que nem tudo é para dizer. Quem é inteligente evita os conflitos, não incendeia susceptibilidades e mitiga a dura verdade.

Para mal dos meus pecados, dizia o Sr. José, a minha mulher deu à luz um novo rebento. Veio fora de tempo! – exclamou o velhote. Todos os outros já estão vingados, só este é que anda ainda por aí – que vergonha! – a mamar a chupeta.

E o rapaz lá ia crescendo, tagarela e brincalhão, sempre com uma piada na algibeira, para fazer rir a malta que o rodeava. E no desdobrar da sua adolescência, mais do que nas fases anteriores, iam-se respingando uns inchaços de loquocidade, descontrolada, impulsiva e atrevida. Era um intrometido, metia o nariz em tudo. Coscuvilheiro, intriguista, alarmista e conflituoso. Nas aulas, até era um bom aluno.

Diziam lá na terra que se assemelhava muito à tia Josefa, a espingardeira. Nem que fosse filho dela, escarneciam os menos faladores.

A tia Josefa chamavam-lhe a espingardeira por ter na ponta da língua o rastilho de má faladora. Era uma língua venenosa. Nada e ninguém he escapava. Aferroava o seu veneno em todos. Por isso, era mal vista e evitada por toda a gente.

Dizia o pai, a bufar e dando punhadas na testa, parece-se mesmo a má língua da espingardeira. Que vai ser dele, vizinho! Já ninguém o suporta. Ninguém o quer ver à frente.

– Olha, leva-o ao Psicólogo.

Assim foi. Submetido a testes de Orientação Profissional, o rapaz evidenciou um Q.I. a rondar o superior. Boa imaginação criadora. Inteligência verbal médio-superior… e por aí adiante. Mas no campo afectivo-emocional manifestou um feixe de instabilidades a gritarem pela necessidade de atenção.

Não há bela sem senão. Agora aqui, nestes descontrolos emocionais, é que vai estar o busílis.

– Dr. que fazer, então, do rapaz? – pergunta o pai.

– Encaminhá-lo para o jornalismo não é descabido, responde o Psicólogo. Como é intrometido e gosta das novidades, vamos evitar que o rapaz tropece e caia naqueles programazinhos exibicionistas da televisão. São só para os medíocres e não para ele.

A sinceridade das suas palavras espalmava-se na imitação relativa ao tom de voz e aos meneios e requebros das ancas, nos gestos aparvalhados, sinais evidentes de desapreço por tais programas.

– Sr. José, digo-lhe com toda a verdade que, onde abunda o sexo, definha a imaginação. O seu filho irá ser um excelente jornalista. Só é preciso que oriente bem as suas motivações; eduque, controlando a emotividade e impulsos; harmonize, num todo, os pensamentos. Assim será mais humano. De outro modo, não passará de uma fútil espingardeira, o enjoo de toda a gente.




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