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Cristãos a menos e/ou padres a mais?

Recentemente o responsável de um Seminário Maior alertava para um problema que o aflige: “corremos o risco de, a continuar a formação que estamos a ministrar, a médio prazo, poderemos ter padres a mais para o estilo de cristãos que aqueles estão a cuidar, a promover ou a alimentar”.

N/D
8 Nov 2004

Vem este desabafo/reflexão a propósito da Semana dos Seminários que decorre de sete a catorze deste mês de Novembro.

De facto, as paróquias reflectem – mesmo que tal se (não) pretenda! – quem delas tem a responsabilidade, numa quase osmose, mais por aquilo que se é do que pelas (possíveis) iniciativas que se tente realizar, tanto do padre-pároco como da própria comunidade cristã.

Não será – acreditamos – descabido questionar qual o modelo de padre que os candidatos ao sacerdócio têm como projecto de vida. Também neste âmbito poderemos (ou deveremos) inquirir, sobretudo dos padres mais velhos, sobre a concretização – conseguida ou não – de um (sonhado) projecto de vida sacerdotal.

Quantas vezes teríamos de ser mais compreensivos para com algum (aparente) desânimo ou mesmo para uma certa acomodação rotineira!

Por outro lado, vai-se ouvindo dizer: «não é por haver poucos [candidatos ao sacerdócio], que temos de aproveitar tudo»! De facto, há cada vez menos seminaristas se tivermos em conta as necessidades de reposição – na maior parte das dioceses – de sacerdotes na vida pastoral, sobretudo no serviço paroquial. Mas isso, antes de nos afligir sobre as consequências, dever-nos-ia questionar sobre as causas. Com efeito, também neste campo se reflecte a quebra de natalidade a que temos assistido na Europa e particularmente em Portugal, desde a década de oitenta do século passado.

Quando as famílias tinham vários filhos até seria mais fácil – ou, visto noutra perspectiva, menos difícil – deixar partir um filho em ordem a vir a ser padre. Quantas vezes essa vocação – em certos casos na vertente de “bocação” do ter que comer! – seria promoção da família, ganhando algum ascendente social em meios rurais! Agora com a média de um ou dois filhos torna-se mais redutor permitir quase extinguir o apelido da família. Poderemos ter perdido em quantidade e, na maior parte das situações, até em qualidade…

O próprio ambiente familiar era outro: havia tempo para rezar – mesmo que fosse rotineiramente o terço – e para sentir a envolvência orante nos lares. Agora a televisão preside às refeições, servindo-se em catadupa notícias, novelas, futebol, concursos… e Deus vai ficando para esse reduto intimista de cada um!

Isto já para não falar da cada vez maior tendência em sair de casa – mais novos ou mais velhos – em todos os dias da semana e não só, por excepção, ao fim de semana.

A educação da chave de casa na mão – quando ainda adolescentes! – vai criando outros hábitos de autonomia… Que mesmo nos Seminários têm a sua repercussão!

Quem irá obedecer se desde muito novo não teve de dar contas a ninguém, nem sequer aos pais? Quem poderá fazer-se obedecer se está torta a vara para ser vergada e carunchosa a cepa à condução?

Nesta Semana dos Seminários temos muito que reflectir, bastante que rezar e (talvez) demasiado a corrigir. Queira Deus iluminar-nos, fortalecer-nos e conduzir-nos… nesta Igreja que todos (certamente) amamos e servimos!




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