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A cultura da agressividade

Por que razão se admiram das estradas portuguesas serem uma selva? Não é verdade que quase sempre o agredido se torna em agressor?

N/D
8 Nov 2004

Morre-se cada vez mais nas estradas portuguesas. A última semana foi disso um exemplo arrepiante. Nem campanhas, nem multas, nem vigilância policial, nada resulta. A guerra instalou-se definitivamente ao volante. E, enquanto muita gente se espanta, a mim não me espanta nada.
As pessoas estão a ser constantemente agredidas: em casa estão encurraladas, vêem paredes a toda a volta, ou, na melhor das condições, vêem os telhados dos prédios mais distantes. E isto seis dias por semana, ao sétimo dia, sentem a necessidade de evasão e de distância. A fuga ao cenário do quotidiano apresenta-se-lhes como um escape: eco e voz no mesmo desejo. Como pássaros soltos da gaiola, e na ânsia do gozo desse dia, ficam tontos e não raro se esbarram na euforia daquela libertação precária.

Quem goza pouco, goza depressa. As notícias televisivas abrem sempre com desgraças: suicidas, imolações, bombistas, desastres naturais, sangue, sempre muito sangue e corpos desfeitos. Esta agressividade provoca nas pessoas uma predisposição para a raiva, fermento que um dia levedará. Porque entrou pelos sentidos dificilmente se poderá dominar pela razão. Se alguns o conseguem a maioria deixa-se vencer.

No futebol, mais que em qualquer outra modalidade desportiva, a agressividade é uma arma maior que a táctica. A bola pode passar mas não passa o homem. Esta cultura são os técnicos que a incentivam e a apoiam. A violência sobe dos relvados para as bancadas onde se exprime através dos gritos e das obscenidades e atingem a autorização legal/clubista, nas claques organizadas, cogumelos venenosos.

A natureza está constantemente a ser agredida, quer na sua paisagem, quer no seu clima: é o cimento a invadir os matos e as árvores, são os gases a destruírem a camada do ozono, é a desertificação por falta de água, é o mar a invadir as praias pela retirada desmesurada das areias, etc. etc. No mundo dos negócios assiste-se cada vez mais ao marketing agressivo; é a dura competitividade empresarial que faz com que a publicidade e a promoção já não cheguem para convencer o comprador.

As cores da roupa da moda passaram de suaves ou discretas para as cores mais vivas realçando uma agressividade sensorial de primeiro impacto. No ensino, as agressividades que se observam nos recreios, nos corredores e salas de aula, não estão ali por acaso. Não nasceram por geração espontânea.

A escola é o reflexo da sociedade envolvente, logo, se esta é agressiva, a escola também o é; os alunos são incentivados à vitória de um contra todos. Passar de ano não chega, é preciso derrotar os outros para entrar na universidade.

Os cursos superiores passaram a ser um concurso para o mundo do trabalho. O desemprego é uma agressão à estabilidade social. A política é feita de agressividades verbais. Numa discussão entre dois políticos está sempre presente, não o diálogo da verdade, mas a ideia de um ganhar e outro perder na argumentação.

As crianças são agressivas, mordem, pontapeiam, cospem nas outras crianças com a fúria que lhes dá o instinto, demonstrando que a agressividade é uma aptidão animal.

É verdade, mas este instinto animal, que só a sociedade tem o poder de controlar, é potenciado pela cultura da agressividade que todos os dias entra pelos nossos olhos e se vai sedimentando, aos poucos, pingo a pingo, nos nossos sentidos. Então por que razão se admiram das estradas portuguesas serem uma selva? Não é verdade que quase sempre o agredido se torna em agressor?




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