Fotografia:
Os media ao serviço dos cidadãos

O papel que os meios de comunicação social devem desempenhar nas sociedades democráticas é um tema que suscita discussões cada vez mais generalizadas. Ontem, em Paris, por iniciativa do Observatório dos Media, realizou-se, diante do Ministério da Cultura e da Comunicação, uma manifestação para exigir que o serviço público audiovisual seja um espaço ao serviço dos cidadãos e dos criadores e não dos anunciantes.

N/D
7 Nov 2004

A manifestação vem somar-se a um extenso conjunto de actos que já foram promovidos para protestar contra afirmações do presidente da TF1, Patrick Le Lay, já citadas neste espaço, que, no livro Les Dirigeants face au changement (Paris: Les Editions du Huitième Jour, 2004), sustentou que “no essencial, o papel da TF1, é o de ajudar a Coca-Cola, por exemplo, a vender o seu produto”.
E, preto no branco, assegurou: “para que uma mensagem publicitária seja captada, é necessário que o cérebro do telespectador esteja disponível. As nossas emissões têm como vocação torná-lo disponível: quer dizer, diverti-lo, descontraí-lo, para o preparar entre duas mensagens. O que nós vendemos à Coca-Cola é tempo de cérebro humano disponível”.

Dizer que o mais emblemático canal televisivo francês tem por principal missão esvaziar o cérebro dos telespectadores para o colocar à inteira mercê dos vendedores de produtos é uma ideia que rebenta com qualquer conceito de cidadania. Visto pelos olhos do presidente da TF1, o telespectador é apenas um livro de cheques ou um cartão de crédito.

As concepções de Patrick Le Lay foram pouco apreciadas. O facto de terem aparecido num livro agravou tudo, pois não permitiu, como tantas vezes sucede, dizer que foram os jornalistas que adulteraram o que se disse.

A reprovação de Le Lay, contudo, não foi generalizada, pois não faltou quem, embora discordando do patrão do canal, elogiasse o facto de, pela primeira vez, aparecer alguém a assumir que as televisões, e não apenas a TF1, são um negócio, que serve, fundamentalmente, para impingir coisas.

“A declaração de Le Lay é o triunfo da franqueza”, afirmou o cantor Jean-Louis Murat à revista “Télérama”, que, no início de Setembro, dedicou um extenso dossier ao caso. “É preciso aplaudir sempre que alguém diz que um gato é um gato”, disse Murat, que, assumindo o estatuto de não-espectador, garante que estamos em presença da “mais bela análise do fenómeno televisivo”.

Segundo o cantor, a televisão e os media em geral estão quase todos, principalmente, ao serviço da publicidade.

Murat julga que não há cinismo em Le Lay, mas a Sociedade Civil dos Autores Multimedia (SCAM) pensa o contrário e, ao cinismo, adiciona o desprezo e a arrogância. O organismo que representa cerca de 20 mil realizadores, autores de entrevistas e de comentários, escritores, tradutores, jornalistas, videastas, fotógrafos e desenhadores, difundiu, através do correio electrónico, um “apelo aos cérebros não disponíveis” para aderirem à manifestação de ontem.

Antes, a SCAM tinha distribuído abundantemente cartazes em que se referia que a declaração do presidente da TF1 mostrava o nível de degradação que podia atingir a televisão nas nossas sociedades de consumo, sendo a “perfeita definição da mercantilização dos espíritos, dos comportamentos e dos valores”.

“A forma é brutal, violenta. Mas, no fundo, nada de novo. Com a sua linguagem crua, Patrick Le Lay apenas define o modelo de televisão comercial”, observava uma jornalista da “Télérama”.

O escritor Frédéric Beigbeder mostra-se, porém, mais surpreendido: “Eu nunca imaginaria que um grande patrão francês pudesse adoptar publicamente o discurso das personagens que eu coloquei em cena no meu livro 99 Francs!” – a obra, que em Portugal tem o título de 14,99 euros – A Outra Face da Moeda (Lisboa: Presença, 2002), é um preocupante retrato do mundo publicitário, que o autor bem conhece por nele ter trabalhado.

“Interrompo os vossos filmes na televisão para impor os meus logotipos”, sentencia Octave, o publicitário protagonista de 14,99 euros. “É tão bom penetrar no vosso cérebro. Eu gozo no vosso hemisfério direito. O vosso desejo já não vos pertence. Eu imponho-vos o meu. Proíbo-vos de desejarem ao acaso. O vosso desejo é o resultado de um investimento que se cifra em milhares de milhões de euros. Sou eu quem decide hoje o que vocês vão querer amanhã”, confessa o tal Octave, uma personagem que tem ao seu serviço gente como o chefe da TF1.

Frédéric Beigbeder considera que Le Lay diz a verdade: “Os canais privados não servem os telespectadores, mas os ‘clientes’, que são os anunciantes”. O escritor, que foi redactor publicitário na Young & Rubicam, lembra que a publicidade televisiva funciona. Se assim não fosse, os anunciantes não investiriam nela biliões de euros. Uma semana de spots televisivos, recorda Beigbeder, era suficiente para que toneladas de iogurtes desaparecessem das prateleiras dos supermercados. Estas coisas são mais ou menos conhecidas, acrescenta ele, mas o mais chocante é saber que as televisões pensam a programação desta maneira. “Há motivos para se ser paranóico”, crê Frédéric Beigbeder e talvez não exagere.

Seja como for, é absolutamente necessário exigir que os meios de comunicação social sejam espaços ao serviço dos cidadãos e não dos anunciantes.




Notícias relacionadas


Scroll Up